Sobre

 

Certa vez, quando iniciava um projeto de pesquisa, um grande amigo me fez uma pergunta aparentemente comum: “Que estilo de música mais te interessa?”

Todos”, respondi. “Como quer que seja uma expressão musical, a princípio me interesso pela sonoridade.

Mal sabia que esta pergunta realizada pelo compositor, arranjador, orquestrador e maestro Rogério Duprat era o critério, adotado por ele, para saber se me aprovaria como pesquisadora do seu trabalho. Dei sorte e o Rogério me respondeu que para entender a sua produção musical seria necessário ter uma mente aberta, um entendimento diverso sobre música e um ouvido múltiplo.

Naquele momento, iniciou-se um vínculo de cumplicidade, confiança e amizade entre nós. Com o passar do tempo o trabalho foi se desenvolvendo de forma natural. Durante o período que trabalhei ao lado do Duprat, como pesquisadora, tivemos muitos momentos em que só falávamos, pensávamos e escutávamos música. Dos inúmeros ensinamentos que ele me deixou, um é inesquecível e sempre me ajudou a seguir em frente: “é possível ser muito criativo em momentos de grandes pressões.” É verdade que, por muitos anos, o Rogério Duprat teve que lidar com várias encomendas de projetos diferentes ao mesmo tempo e com prazos de entregas curtíssimos.

Há alguns anos, escrevi um livro chamado Rogério Duprat: sonoridades múltiplas que retratava a jornada artística desse compositor tão singular. Até onde escrevo, já faz cinco anos que ele faleceu e ainda sinto muito a sua falta.

Sobremaneira, as influências de Duprat continuam na minha mente e representam, em certa medida, as minhas atuais escolhas de estudos e articulações em música. Indubitavelmente, ele foi um dos primeiros compositores brasileiros a se valer dos usos e recursos tecnológicos sonoros[1] (tema deste Blog) em suas criações, produções e arranjos. Além disso, estudar o processo criativo de Duprat foi o que mais me encantou quando escrevi sobre o trabalho dele. E sob estes impactos foi que dei continuidade às novas buscas sonoras contemporâneas permeadas por tecnologias e processos criativos.

Num primeiro momento, formei este Blog por vários estudos e entrevistas, com compositores brasileiros, que parte delas realizei durante os anos de 2005 a 2008 quando ainda estava vinculada ao programa de Doutorado em Musicologia pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Apesar deste Blog ter sido iniciado por este material, cuja preocupação era acadêmico-científica, não há nele agora a proposta de que tenha este enfoque. Posteriormente, o material foi se ampliando com a introdução de novos compositores e profissionais da área, em reflexões abertas, sobre diversos temas musicais que giram em torno de uma questão central: evidenciar como os próprios compositores refletem sobre a tecnologia digital em seus processos criativos e em suas produções musicais no geral.

Desde os anos 90 a tecnologia digital tem colaborado constantemente no desenvolvimento do cenário das artes em geral. A conexão entre criação musical e tecnologias sonoras no processo criativo e na difusão via internet é uma presença marcante na cultura digital. A tecnologia digital tem fornecido as ferramentas virtuais para a manipulação e compreensão dos sons que, por vezes, encontram-se um pouco afastados dos instrumentos tradicionalmente usados em música. O computador é o veículo que disponibiliza um espaço acessível tanto para a composição como para a difusão de obras via internet. Os recursos disponíveis de equipamentos digitais em música, assim como, as possibilidades que a internet oferece transformou a atuação do compositor em seu ato criativo e na sua forma de distribuir a sua produção musical. Por intermédio de uma maior acessibilidade aos equipamentos musicais digitais, o criador adquire uma maior autonomia e emancipação na construção do seu trabalho.  A partir do potencial do computador como ambiente de criação e difusão, o cruzamento entre criação musical e tecnologia digital pode se configurar em diferentes qualidades de parcerias criativas do compositor com sua máquina.

Geralmente, quando falamos sobre música e tecnologia temos como referência a música computacional, a música eletroacústica e a música eletrônica. Porém, este não é um Blog que segue uma linha de evolução tecnológica ou se propõe explicar o que venha ser, específicamente, a tecnologia computacional aplicada à música ou até mesmo abordar as diferentes estéticas musicais derivadas, auxiliadas e produzidas pelo computador.

Este trabalho não visa uma análise específica de obras realizadas com o auxílio tecnológico ou dos tipos de registros de repertórios que a tecnologia digital oferece. A intenção central é observar a jornada dos compositores a partir de suas práticas musicais e retratar de que forma essas práticas são moduladas pelas tecnologias sonoras. Também não se trata de apresentar um estudo da relação da música e tecnologias com o foco voltado para algum tipo específico de gênero musical tecnológico. Assim como, para algum tipo de resultado no âmbito mais tecnológico, a exemplo, de cálculos de sons sintetizados, simulação de freqüência, amplitudes moduladas, modelos de filtragens espectrais, gerações de áudio e outros. Ou ainda, um estudo específico dos software  que permitem determinados ambientes de composição e performance. A proposta é o acompanhamento do processo de diversos procedimentos e conexões criativas que esses compositores estabelecem da absorção das tecnologias digitais. Sobretudo, enquanto forma de pensar, desenvolver, evoluir e veicular a tecnologia em suas experiências e práticas profissionais, de uma forma mais panorâmica e comparativa.

É um Blog sobre compositores, idéias, processos de criação, modos de criação, interconexões, sobrevivências e vivências do trabalho com música e suas relações com as tecnologias digitais. Tenho como ensejo mostrar de maneira clara, até mesmo para quem não seja profissional da música, como os compositores entrevistados pensam e elaboram suas relações musicais tecnológicas. Ou seja, dentre tantos diálogos que cruzam as escritas musicais estabelecidos pelos compositores ao criarem suas obras, este trabalho tem como idéia principal abordar, quase que exclusivamente, os diálogos que perpassam à criação mediante às tecnologias digitais. Essencialmente, buscar evidenciar como os próprios compositores refletem sobre os seus processos criativos. Dessa forma, o leitor terá a oportunidade de compartilhar mais profundamente alguns caminhos pessoais e composicionais dos autores entrevistados.

Esses últimos anos foram permeados por e-mails, conversas, telefonemas, skypes, encontros e performances. Diversas vezes, estive junto desses compositores e profissionais incríveis absorvendo verdadeiras aulas que venho aqui compartilhar com vocês. Confesso que aprendi muito, resolvi algumas dúvidas mas fiquei com outras, mudei muito minha visão sobre a atual realidade musical brasileira e conservei algumas perspectivas já há muito enraizadas. Este Blog é estruturado a partir de depoimentos e jamais existiria sem a influência valiosa desses profissionais.

Pesquisar e escrever sobre a intervenção tecnológica digital na música ao lado deles tornou-se uma tarefa, além de intelectualmente estimulante, muito esclarecedora, na medida em que cada um ao seu modo me mostrou uma face diferenciada das tecnologias digitais na música.

Em se tratando de buscar um perfil musical criador, talvez aparentemente, eles possam demonstrar uma certa semelhança. Mas a trajetória de cada um e o modo de se relacionar com a tecnologia e música são bastante diferenciados, o que enriquece o trabalho. No entanto, um elemento se mostrou unificador, o conjunto de suas obras está voltado para a tecnologia digital tanto na forma de criar como de propagar suas respectivas produções.

Diante do vasto cenário musical brasileiro, é apenas uma amostragem parcial de compositores, artistas e artesãos da música com o seu ofício e com as suas ferramentas contemporâneas de trabalho. E sou gratíssima a eles pela participação e presença no meu Blog – “Música em Reflexão”.

REGIANE GAÚNA

São Paulo, 2013

 

 

 

 


[1] Basicamente o trabalho está delimitado em tecnologia digital. Porém, pela expansão do ‘objeto de estudo’ se faz necessário pontuar referências às tecnologias sonoras de uma forma geral (analógicas e digitais).

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