Sandra Ximenez

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Sandra Ximenez é cantora, compositora, performer e está chegando aos 30 anos de carreira nas artes. Participou do Vésper Vocal e foi uma das fundadora dos grupos A Barca e Axial, sendo este último seu projeto autoral em parceria com o músico e produtor Felipe Julián. Em dez anos de carreira o Axial tem 3 CDs lançados e um currículo extenso de shows no Brasil e no exterior. Atualmente faz intervenção urbana com o Coletivo Dodecafônico e lança seu trabalho mais pessoal, Turbulência,que assina como a persona Sandra-X,onde extrapola a canção convencional para experimentar a composição de bases eletrônicas, aspokenword, a performance e outros pontos de contato entre fala/canto, sonorização/composição, poesia/canção. A versão ao vivo de Turbulência se dá como uma performance lítero-musical com forte toque sensorial provocado pelo audiovisual composto pelo parceiro Felipe Julián.Sandra-X canta-fala as peças musicais, processa sua voz ao vivo, se relaciona corporalmente com o espaço ocupado, e faz pequenas leituras de textos filosóficos que inspiram seu fazer artístico. Paralelamente a esses trabalhos pessoais sempre colaborou com a formação vocal de diversos artistas das artes cênicas e participa de projetos em que realiza trilha sonora para dança, teatro e cinema, assim como instalações sonoras.

ENTREVISTA (Cd Turbulência)

*Como surgiu a idéia do projeto Cd Turbulência?

Sandra: O Turbulência é um trabalho que vem na sequência da pesquisa toda realizada com o Projeto Axial e antes ainda com o grupo A Barca. N’A Barca, nós nos retiramos do modo mais convencional de abordagem da MPB para “dar um passo atrás” em direção à cultura tradicional, à oralidade. No Axial eu parti desse lugar de cantos tradicionais do Brasil, do Haiti, mas já com uma reambientação desses cantos ao contemporâneo usando a estética da música eletroacústica e eletrônica na parceria com o Felipe Julián. No Axial também, logo na sequência, comecei a mexer bastante com a composição, musicando poemas, orikis (forma poética iorubá), e me perguntando, nas realizações e pesquisas sobre a presença vocal, a força da palavra, quando cantar, quando falar. E agora sinto que estou radicalizando esses experimentos no Turbulência, onde há ainda a presença do canto mas a palavra poética falada é ainda mais presente, sobre composições texturais, eletrônicas, sensoriais.

 * Você poderia nos contar sobre as escolhas das parcerias com os autores, músicos, performers, intérpretes e produtor?

Sandra: Eu fui me apaixonando por escritores e poetas, nos últimos anos, e agora estou juntando esses textos na performance do Turbulência. Como há nas apresentações uma grande fusão de linguagens não estou nem chamando de show, mas de performance. Tem poetas da minha geração, como Sergio Cohn, Ricardo Domeneck, Claudia Schapira. Também pessoas mais jovens, parceiros como Vânia Medeiros (artista visual que já fez o CD-Livro Simbiose do Axial)  Marion Hesser, estão presentes nos textos que tenho escolhido. Li uma tese de doutorado maravilhosa, da Rosane Preciosa, e escolhi um capítulo pra fazer uma canção… e por aí vou indo. Também têm alguns textos meus. A parceria com o Felipe continuou aqui: eu componho as músicas, já produzindo mesmo as bases no computador, colocando muitas idéias, texturas, faço uma peça inicial, daí passo pra ele, que produz de fato a base, colabora com idéias na composição, finaliza.

 *Como foi esse processo sobre o estudo pelo audiovisual, a experimentação em performance e a intervenção urbana dos últimos anos, ou seja, a versão ao vivo de Turbulência?

Sandra: No Axial já trabalhamos muito com fusão de linguagens. O próprio som já trazia algo de plástico porque trabalhamos muito com difusão quadrifônica, com instações sonoras para fazer shows, com a idéia de que som é ruído, é textura, e não só instrumento musical e voz. Por isso sempre tivemos interação com outros artistas: principalmente visuais – fazendo iluminação e imagens ao vivo e peças de divulgação e difusão –  e performers e bailarinos atuando ao vivo nos shows. No Turbulência percebemos que o poético já sugeria realmente que agente investisse na performatividade das apresentações (mesmo no site www.sandra-x.art.br pode-se fruir desse audiovisual que se tem ao vivo). Então o Felipe, que tem se tornado um artista realmente do audiovisual e não só da música, começou a criar a possibilidade de operar eletrônicos e visuais ao vivo, visuais sincronizados com os sons, gerando assim um universo mais sensorial e poético que agrega sentido e leitura às peças sonoras. Quase não dá pra pensar numa coisa sem a outra. Outra coisa que configura essa fusão de linguagens no Turbulência é a minha experimentação em performance urbana nos últimos anos. Sempre fui do trabalho corporal, sempre fui estreitamente ligada ao teatro e à dança, em toda a minha trajetória de já quase 30 anos como artista. Ultimamente, sinto que muitos trabalhos e abordagens começaram a fazer sentido juntos: estou nas ruas com o Coletivo Dodecafônico sistematicamente há dois anos, e isso influenciou minhas composições, a cidade entrou no computador e no meu corpo e saiu de forma turbulenta! Nas bandas que fiz parte não conseguia muito trazer esse corpo performático para a música, mas nessa fase tenho conseguido juntar mais as coisas.

 *Como está sendo esse processo da gravação em Estúdio?

Sandra: Muito simples e sem crise, misteriosamente… Acho que por que a composição dessas peças já é um caminho bem andado no processo de gravação. E tenho mais certezas de como fazer as coisas do que eu já tive antes.

 *Você tem lidado com a divulgação e distribuição do Cd Turbulência em redes sociais? 

Sandra: Sim! Tenho a página Sandra-X no fcbk, que funciona meio mal, me parece que essas páginas de artistas são um pouco difíceis de andar… mas no meu perfil mesmo, Sandra Ximenez, sinto que tenho mais alcance. Também fiz um site bem bacana, que já mencionei: www.sandra-x.art.br. E acabei de ganhar o ProAC de gravação de disco e circulação! Então vamos prensar o disco físico mesmo, que provavelmente será distribuído pela Tratore.

 * Houve algum patrocínio? Como você subsidiou esse projeto?

Sandra: Até o ProAC, que veio agora, foi investimento pessoal mesmo, nos intervalos de todos os outros trabalhos da vida… e alguns cachês que já foram chegando porque tenho tido convites pra apresentações desde o comecinho desse trabalho.

 *As composições trazem um forte toque sensorial provocado pelo audiovisual resultando numa sonoridade muito refinada. Afinal, o que são as Turbulências na canção?

Sandra: Eu chamei de Turbulência esse momento de realmente tirar algo mais pessoal de dentro do coração e das vísceras… nesse tempo de carreira sempre trabalhei coletivamente, nunca tive necessidade ou impulso para “carreira solo”. Então acho que a turbulência toda é essa expansão de algo contido, esperado, e na verdade ventando no momento certo para o exterior.

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ENTREVISTA (Projeto Axial)

* Sandra vamos iniciar conversando sobre como é a sua banda Projeto Axial? Quando e como surgiu?

Sandra – Surgiu em 2003, estamos fazendo 10 anos este ano. Eu estava querendo trabalhar com canção de alguma forma diferente e encontrei Felipe (Julián) que vinha mais da música erudita, instrumental, eletroacústica e, também, se interessou em abordar a canção popular de um jeito mais pessoal.

*Você poderia nos dizer como se dá o processo de criação, no Axial, da ‘canção’ com elementos, de suas pesquisas em musica tradicional, aliados às tecnologias sonoras?

Sandra – Sim, as possibilidades com tecnologia acabaram sendo exatamente o que eu precisava. Embora, na época não tinha clareza disso. Já adorava Bjork, por exemplo, mas, pessoalmente, não conhecia essas ferramentas eletrônicas assim, para começar a usar sozinha. Então, comecei a mostrar para Felipe as coisas de música tradicional brasileira e, também, do Haiti e afro-descendente, cantadas em iorubá  que eu estava mexendo. E ele sentiu que aquele material era permeável à simbiose com o material eletroacústico.

*Você tem algum projeto, em vista, para uma possível carreira solo como cantora?

Sandra – Carreira solo acho bem difícilSempre fui de fazer coletivamente mesmo. Com a Barca foram mais de dez anos de trabalho coletivo e agora com o Axial também é uma criação totalmente compartilhada. Tenho interesses cada vez maiores em performance e intervenção urbana  mas também sempre trabalhando com outros artistas e linguagens.

*Sandra como os atuais meios tecnológicos sonoros auxiliam ou limitam o seu trabalho nas suas composições e nas suas produções musicais?

Sandra – Eu aprendi que seria possível atingir o sensorial, a paisagem sonora, o texturizado, por meio dessas ferramentas. Muitas vezes trabalho bem junto com o Felipe nas produções e vou ajudando a encontrar caminhos ou só mesmo dizendo o que eu gosto ou não gosto. Mas nós temos muita sintonia nesse caminho sensorial de criação, então, muitas vezes o jeito como eu harmonizo uma canção e mostro pra ele, o jeito que eu canto, já faz a imaginação dele chegar junto da minha e o que ele propõe quase sempre é muito próximo do que eu aprovo imediatamente. Também comecei a fazer trilhas para dança sozinha, há alguns anos, uso o software Live da Ableton  e aprendi a usar texturas, sons abstratos, mixar com música mais convencional. Fui iniciada no assunto e já consigo criar nessa linguagem da tecnologia. Acho uma evolução inquestionável, caminho, destino. A música sempre teve vocação tecnológica e surgiu junto com as ferramentas, não?

*O que você faz hoje, em música, que não faria anteriormente com o sistema analógico?

Sandra – Eu não sabia mexer num estúdio analógico. Acompanhava com interesse gravações e mixagens, mas só olhando, ouvindo. Agora sei mexer em vários programas, comecei com o Vegas que é muito bom e fácil, depois fui conseguindo entender outros. Aprendi a gravar e editar minhas próprias vozes e teclados. Aprendi a procurar sons na internet pra fazer minhas trilhas e jogar nos programas pra editar (especialmente Sound Forge e Live, nesses casos).

*Poderia dar uma idéia de como é basicamente o seu processo composicional individual?* O que você faz hoje vocalmente, com a tecnologia digital, que não faria anteriormente com o sistema analógico?

Sandra – Componho sempre escrevendo e ao piano, ainda hoje. Mas logo tenho necessidade de jogar a música no computador. A composição de vozes, por exemplo, é possível pra mim por causa dessa ferramenta e facilidade dos programas. Eu nunca escrevo os arranjos de vozes, vou no ouvido, usando os recursos dos programas mesmo.

*Existem diferentes motivações ou outras inspirações presentes em seu ato criativo?

Sandra – Poesia, música em formatos livres, juntos à fala, imagens, sentimentos internos, pensamentos mal percebidos. E sempre a temática dos arquétipos da cultura afro-brasileira, o panteão iorubá de orixás, os cantos de caboclos e pajelanças.

* Você adota métodos específicos para trabalhar em suas criações musicais?

Sandra – Não! Mal consigo ter certeza de que posso conseguir compor de novo.

* Quais são as suas afinidades estéticas musicais?

Sandra – Música tradicional e étnica variada: Bjork e Radiohead. Muita coisa de trip-hop e música eletrônica. Muita coisa dos paulistas de gerações anteriores e da mesma geração que eu, só pra exemplificar, de leve: Ná e Dante Ozzetti e suas turmas, Juçara Marçal, Kiko Dinucci…

 *Como você se relaciona com o seu espaço de trabalho? Como é formado o seu set para trabalhar?

Sandra – Tem dois espaços: a sala de casa com o piano acústico e a sanfona que voltei a estudar recentemente, e o estúdio com teclado, microfone, pré-amplificador, i-pad. É bem diferente o jeito de usar a voz e as mãos em cada um deles. Geralmente, crio mais na sala mas sempre ensaio e percebo melhor as dificuldades e questões para melhorar no estúdio.

*Você tem um homestudio?

Sandra – Sim, o estúdio do Axial, Felipe e eu somos casados!

*Quando faz shows leva o seu set de casa? Ele é composto por vários laptops ou outras aparelhagens diferentes?

Sandra – Sim, levamos tudo. Hoje em dia, no Axial, eu não levo laptop e sim um ipad que manda timbres para o meu teclado controlador. O Felipe sim, leva muitos ‘equipos’, kaosssilator, ipad, dois laptops, controladores, pedaleira, etc e etc. Quando vou fazer trilha eu levo geralmente meu laptop tambem, para usar o Live, além de teclado e microfone que ligo no próprio computador para poder usar o looper que tem no Live.

* Em suas aulas, workshop e cursos como as tecnologias sonoras te auxiliam?

Sandra – As aulas são bem corpo e voz mesmo. Só gosto de ter um ‘equipo’ de som bom, para que os momentos de escuta sejam bem prazerosos.

*Como você encara a aquisição, divulgação e distribuição de repertórios musicais via internet? Reduz distâncias entre o músico e seu público?

Sandra – Sim, reduz, é maravilhoso isso. Não dá pra saber como seria ser músico hoje sem essa ferramenta. O Axial foi das primeiras bandas a disponibilizar o primeiro CD, de 2004, inteiramente livre para download. Todo mundo ficava com dó da gente…

*Como você vê a ‘ciber-pirataria’ e a vendagem dessas cópias em CD?

Sandra – Não recrimino nada disso. Quanto mais compartilharem minha música melhor. Quando compartilho alguma música dessa forma é porque é um som que amo e quero dividir, deixar o outro feliz de também ouví-lo.

*O que você pensa sobre a transformação da noção autoral a partir da licença Creative Commons? E a quebra de patentes?

Sandra – Creative Commons tambem é muito familiar, fomos um dos primeiros CDs a licenciar assim o Axial, em 2004. Parece-me o caminho mais correto para essa loucura que virou a noção de autoria e propriedade intelectual.

* Os computadores e seus mecanismos de busca na internet ampliam as possibilidades de encontros e afinidades estéticas?

Sandra – Acho que sim, certamente. Mas me preocupa um pouco e me dá saudades, também, o maior contato pessoal e parece que a maior quantidade de encontros pessoais que eu tinha antes, na juventude, na época pré- internet. Não sei se é só nostalgia da minha juventude ou se realmente nos encontramos menos, ao vivo, hoje em dia por causa da internet.

*A partir das tecnologias, como você vê os problemas da ‘suposta’ democratização da criatividade?

Sandra – Democratização da criatividade só pode ser bom, não? Acho que não há problemas com relação a isso, só soluções!

*Se você encontrasse um Cd seu sendo vendido por camelôs. Como você veria isso?

Sandra – Eu ia achar legal.

*Como você vê a questão autoral no processo remix. Tudo bem colagens e recolagens?

Sandra – Sim! Acho que quando possível sempre são legais os créditos.

 LINKS DA SANDRA

http://www.sandra-x.art.br/

http://www.axialvirtual.com

http://www.facebook.com/sandra.ximenez?fref=ts

http://www.myspace.com/projectaxial

http://www.eixoondulante.blogspot.com.br

www.acervobarca.com.br

 

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