Luli Radfahrer

Luli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da Escola de Comunicações (ECA) e Artes da Universidade de São Paulo (USP) há quase duas décadas.Trabalha com internet desde 1994, quando fundou a Hipermídia, uma das primeiras agências de publicidade digital do país, adquirida pelo grupo Ogilvy. Já foi diretor e responsável pela divisão digital de algumas das maiores agências de publicidade do país, como DPZ Publicis, Leo Burnett e AlmapBBDO. Hoje é consultor em inovação digital, com clientes no Brasil, Estados Unidos, Europa e Oriente Médio. Mantém um blog em que discute e analisa as principais tendências e influências sociais das tecnologias e mídias digitais. Em seu perfil do Twitter compartilha descobertas e pontos de vista na área. Também escreve uma coluna semanal no caderno Tec da Folha de São Paulo, na qual, discute tendências e comportamentos sociais na era digital. É autor dos livros Design/web/design e Design/web/design:2, A Arte da Guerra Para Quem Mexeu No Queijo Do Pai Rico e Enciclopédia da Nuvem.

*Luli para começar você poderia nos falar sobre o seu último livro Enciclopédia da Nuvem, no qual, você escreve sobre Cloud Computing?

Luli – O que acontece, em 2010, estava crescendo puramente a realidade na vida de todos. Fiz um levantamento das principais tecnologias e das principais necessidades das pessoas resultando numa somatória de 100 necessidades. A partir disso, estruturei o livro em 100 capítulos tratando 1 necessidade por capítulo. Computação em Nuvem são aplicativos e serviços cujo processamento é realizado por uma rede de servidores dedicados, combinando recursos e disponibilizando informações atualizadas para máquinas remotas de vários tipos, tamanhos e sistemas operacionais. Neste livro, são analisadas 100 situações que demandam atenção, divididas em 10 áreas e mais de 550 soluções para o auxílio empresarial e pessoal. O livro é mais voltado para o empresarial. No setor pessoal, estaria mais direcionado ao ensino à distância e aumentar o aprendizado na vida profissional do indivíduo.

 *O que você faz hoje, em Web Design, que não faria anteriormente com o sistema analógico?

Luli – Praticamente tudo, desde escrever textos, tirar fotografias, fazer contatos, conversar com as pessoas até me atualizar. Não é mais concebível viver sem internet. Confinar ao séc. XX me limita. O que seria viver no séc. XX? As informações eram limitadas, eram dadas pelas instituições, bibliotecas, escolas, igrejas e TV. Não havia a independência, a autônomia e a liberdade que temos. Hoje temos acesso a tudo o que foi produzido desde a idade da pedra, egípcios, gregos, Iluminismo até agora. Tudo o que é produzido hoje e de todo o conhecimento no mundo é regulamentado a cada 2 dias e disponibilizado nas redes.

 *Como criador artístico e diante de uma nova idéia, como os meios tecnológicos te auxiliam e como te limitam na execução de suas produções?

Luli – A principal limitação é o foco, como você tem muita informação você acaba perdendo o foco. É necessário mais disciplina mas acredito que agente só ganhou com as tecnologias. Tem um dizer do tio do Homem Aranha: “grandes poderes demandam grandes responsabilidades”. Eu sei não é uma filosofia muito profunda, rs! Porém, bastante real.

*Poderia dar uma idéia de como é basicamente o seu processo criativo? Como você inicia uma idéia criativa? Pensando conjuntamente com a tecnologia?

Luli – Normalmente, acordo muito cedo às 6h00 e faço um alongamento de 15 minutos, começo a produzir e vou até 12h00/13h00. Às 10h00 faço uma pausa e só aí é que eu me conecto com o mundo, ligo o celular e as redes. Antes disso eu não existo para o mundo e fico num isolamento completo. À tarde dou aulas, trabalhos administrativos, faço produção acadêmica e trabalho até à noite. Pesquiso bastante antes de criar nas manhãs. À noite quando durmo é o período de incubação. Claro que não gosto de acordar às 5h00 mas gosto muito de estar acordado às 5h00. É maravilhoso porque o meu dia já está ganho! E penso conjuntamente com a tecnologia, é todo um processo único e inseparável. Projetos de estruturas digitais é quase todo realizado no computador desde rascunhos, ilustrações até as finalizações.

*Criar digitalmente transformou as motivações do designer?

Luli – Totalmente porque o computador não é mais uma ferramenta é infra-estrutura. Agora você tem que desenvolver um método, uma disciplina de trabalho porque senão você fica dependente, ou melhor, escravo do computador. Existe muito preconceito porque existe um mal uso – não acho o computador o problema  mas o uso mal feito que chamaria de abuso levando ao vício. Dizer que você não precisa do computador pra criar é um orgulho meio ‘besta’ porque o computador não te deixa menos competente ou menos qualitativo. Essa resistência ao computador é como a história do índio com a câmera fotográfica – vai roubar a alma pela ignorância de conhecer algo novo e poder dar um salto maior.

 * Você adota métodos específicos para trabalhar em suas criações?

Luli – Sim, você não deve de maneira alguma sentar em frente da tela em branco porque ela não vai te trazer a idéia. Mas você em simbiose com a máquina é que faz acontecer.

*Como é formado o seu setup para trabalhar?

Luli – O melhor setup é montado com uma boa cadeira, uma mesa muito grande, vazia e limpa. Quando estou trabalhando vira uma ‘zona’ mas depois limpo tudo pra deixar vazia para o próximo dia. Tenho um Mc de 27 polegadas de tela, 1 tábua gráfica, alguns discos rígidos e uma conexão de rede bem gorda. Basicamente é isso que eu preciso. Para os serviços digitais agente não precisa mais de uma máquina potente mas uma que agüente uma conexão de rede potente.

*Você compõe ou escreve nos aeroportos, praças e salas de espera? Você adota a idéia laptopia?

Luli – Minha laptopia é o uso do celular, rabisco coisas à mão, fotografo, gravo, registro buscas em sites, guardo idéias. É muito mais confortável do que anotar em caderninhos ou pedacinhos de papéis. O dropbox faz sincronização automática e transfere para o meu computador. Ás vezes, saio pra comprar pão e resolvo bater uma foto, ou seja, salvo como material pra criar. Uso também o evernote que guarda quando e onde você registrou uma idéia. Li em Chega de Saudade que Tom Jobim encontrou o maestro Villa Lobos numa festa e disse: “quem bom vê-lo maestro compondo numa festa” e Villa Lobos respondeu: “ouvido interno não tem nada a ver com o ouvido externo”. É meio por aí…

 * Luli numa de suas entrevistas você colocou que a Academia é lerda e que você vem tentando mostrar que o digital não é uma tecnologia mas uma linguagem. Você poderia discorrer um pouco mais sobre esse assunto?

Luli – O grande problema da Acadêmia é que ela ainda funciona num processo mais antigo. O digital é uma linguagem e quanto mais eu demoro pra dominar, mais eu vou ficar com sotaque pra falar, com menos fluência. O mundo digital, o mundo do computador é uma linguagem e ainda tratam apenas como se fosse uma ferramenta.

* No seu texto Pós-Moderno: uma prévia de 22/03/2006, você elaborou uma tabela comparativa para mostrar algumas mudanças da passagem do tempo Moderno para o Pós-Moderno. Você acredita que hoje já seria possível estabelecer uma nova tabela para mostrar a passagem dos tempos Pós-Modernos ao Contemporâneo?

 Luli – Essa tabela foi uma tentativa de rotular algo que não dava para rotular. Hoje em dia mudaria o título ‘pós-moderno’ e mais algumas coisas para atualizar. O ambiente hoje não é mais compartimentado, não gosto da tabela talvez mudaria do ‘mundo das categorias’ indo para ‘o mundo sem categorias’. O que mudou hoje é que enquanto as pessoas tiverem acessando, operando na técnica mais ela será dinamizada e imprevisível porque ela é criativa e traz respostas que você nem imagina. É o tal exemplo ‘não importa a resposta mas sim a próxima pergunta’.

*No seu texto Invenção e Inovação de 19/07/2007, você afirma que “Leonardo da Vinci e Júlio Verne são boas provas que não é difícil se imaginar coisas novas, o duro é colocá-las em prática”. O compositor Rogério Duprat acreditava que a cultura havia esclerosado e que já não era mais possível se criar nada, absolutamente, novo e original. Você acredita mesmo que é possível se criar algo novo sem esbarrar em releituras?

Luli – É necessário entender direito essa história de releitura, é como uma parede que você irá se apoiar nos tijolos, como Newton que dizia se apoiar em ombros gigantes. A idéia de releitura da época do Duprat é diferente da de hoje. Hoje temos no séc. XXI acessos às fontes em redes mundiais que vai desde Kênia até Polônia. No séc. XX não dava pra ir muito longe. O mundo mudou muito desde a época de Duprat. Sim, acredito que é possível manter a originalidade porque eu tenho um mundo cheio de referências ao lado. No séc. XXI consigo criar em ambientes, totalmente, inusitados.

*Como analisa a ‘ciber-pirataria’ e a vendagem dessas cópias em CD?

Luli – O problema não está na pirataria, está na venda, a propriedade da obra artística você não consegue mais segurar. O que um Beethoven fazia numa Sinfonia inteira? O dinheiro não ia para ele mas para o performer. A pirataria é apenas a evidência da falência de um modelo antigo. E, muita gente está tentando conhecer esse novo modelo, entender qual é esse novo modelo mas ele ainda não mostrou ‘a cara’.

 *Para terminar o que é Webdesign hoje?

Luli – É muito mais uma arquitetura, uma estruturação de ambiente do que um design gráfico. Antigamente era uma peça de cartaz, como uma engenharia, uma peça de comunicação. Hoje ele é um arquiteto…

“A arte mostra uma visão de futuro mais fractal, orgânico, diverso, múltiplo e cheio de detalhes, muito mais parecido com a vida real do que com uma caixa de plástico e alumínio, lisinha, regular e besta. Vai parecer sujo e estranho para os nossos olhos de hoje, mas com o tempo a gente se acostuma” (Luli Radfahrer)

Links do Luli

www.luli.com.br

@radfahrer

coluna semanal no caderno Tec da Folha de S. Paulo

 bit.ly/luli-radfahrer

 http://www.facebook.com/radfahrer/about

 

 

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