Kristoff Silva

 

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Kristoff Silva é compositor, professor de teoria musical e autor de trilhas para teatro, poesia e dança. Além do recente “Deriva”, possui também um DVD (“Ao vivo na Casa da Ópera”, com participação de Ná Ozzetti) e outros dois Cds, “Em Pé No Porto” e “A outra cidade” (este  em parceria com Makely Ka e Pablo Castro). Em 2011, estreou na Sala São Paulo as “Três ou mais canções para voz e quarteto de cordas”, obra encomendada pela Fundação OSESP. Recebeu a Bolsa Funarte de Criação Artística, com um projeto de composição de canções para voz e sons eletrônicos. Foi terceiro colocado no Prêmio Visa, edição compositores, dentre 3.650 inscritos em todo o Brasil. Escreveu o Livro de Partituras de Zé Miguel Wisnik e é um dos violonistas responsáveis pelo Cancioneiro Elomar, com 14 cadernos de partituras do compositor. Apresentou-se na Casa da Música (Porto, Portugal), Mercat Musica Viva, (Vic, Erspanha) South by Southwest, Austin (USA) e em importantes espaços culturais e festivais na Nova Zelândia, como o Erupt Lake Festival, em Taupo, Illiot Theatre, Te Papa Museum e Matterhorn em Wellington e Kujah Lounge em Auckland. Dentre os artistas com os quais já se apresentou figuram nomes como Caetano Veloso, Elza Soares, Elomar, Zé Miguel Wisnik, Luiz Tatit, do diretor teatral Zé Celso Martinez Correa, das cantoras Alda Rezende, Mônica Salmaso, Ná Ozzetti, além da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e do Grupo UAKTI.

ENTREVISTA

*Kristoff, você poderia falar um pouco sobre seu novo disco Deriva?

Kris – É um disco cujo repertório “deriva” de experiências marcantes que tive depois do lançamento de “Em pé no porto”, meu primeiro disco solo. Uma foi a da Bolsa de Criação Artística que recebi pela Funarte para compor canções a partir de sons eletrônicos. A outra foi a da encomenda que me foi feita pela Fundação Osesp, para a composição de canções para voz e seu Quarteto de cordas. Na ocasião da primeira experiência, encontrei na rede um contacto do compositor/letrista Mauro Aguiar, que eu admirava desde uma parceria dele com o Guinga (“Guia de cego”) e o convidei para parceiro. Depois vieram parceiras com Makely Ka e Bernardo Maranhão, esse último no caso das canções para voz e quarteto. Além de canções que derivam dessas experiências, há também uma parceria com Luiz Tatit e uma versão minha para “Acrilic on Canvas” do Legião Urbana.

Bom, mas há também a “deriva”, não como uma ausência de rumo, mas como um modo de estar a mercê de um deslocamento involuntário. É como me senti depois do lançamento de “Em pé no porto”, um disco muito ensaiado, preparado, esperado, uma viagem para a qual eu ” aprontei as malas” detalhadamente, trabalhando ao lado dos músicos maravilhosos que estão sempre comigo (Antonio Loureiro, Pedro Trigo Santana e Rafael Martini). Pedro Durães ( co-produtor do Deriva) entrou para a trupe já no lançamento do disco anterior e tornou-se parte inseparável, como os outros. Mas depois de deixar “o porto”, a viagem se nos mostrou dispersiva: poucos shows, cada um trabalhando no seu mundo e eu, no meu, compondo as canções dessa deriva, de uma maneira mais solitária que antes. Ambos os projetos mencionados traziam essa necessidade de concluir a músicas sozinho. De modo que o que foi acontecendo foi uma individualização do processo e o disco foi se tornando algo quase biográfico. Coisas da minha vida pessoal (separação, o afastamento dos músicos, a paternidade, a solidão) começaram a orientar a concepção dele.

Hoje eu tenho para mim que esse disco é um processo, ou um processador. Entra-se por ele no turbilhão da maré brava (a primeira canção, “Palavrório” tem muito disso) e faixa a faixa vamos adentrando mais o mar até encontrar um veio (as três canções finais) de reconciliação. Termina com a canção “Devires” onde a letra de Bernardo Maranhão arremata:

“abraço minha sombra imponderável

confio minha luz

à trama viva dos signos

dos desígnios do invisível

entrego-me aos devires da deriva

não porque não vejo outro caminho

mas porque sonhei que a vida é sonho”

*Como você lidou com essa nova proposta de divulgação e distribuição do CD Deriva via internet? Reduziu distâncias entre o músico e seu público? Ampliou as possibilidades, também, em Redes Sociais? [Acesse o CD Deriva http://www.amusicoteca.com.br/?p=8866]

 Kris – Demorei um pouco a “soltar” o disco na internet porque estava com vontade de fazer mais vezes a experiência que fiz em Belo Horizonte e São Paulo, que foi a de uma “audição coletiva”. Reunir pessoas para ouvir de ponta a ponta o disco, luzes apagadas, num bom equipamento de som, com caixas ao redor do público. Produção muito modesta, feita na base do carinho e dos contatos pessoais mesmo (em SP foi na Borandá e em BH foi no teatrinho do Grupo Espanca!).  Mas então, quando resolvi lançar na internet, a primeira idéia era fazer isso pelo Bagagem, dos meus queridos Felipe e Sandra, do Axial, mas pensei em ampliar sim as possibilidades do disco, e coloquei na Musicoteca, que tem uma variedade enorme de lançamentos. Por um lado eu perco algo muito precioso que o Bagagem tem, que é o recorte muito bem delineado. Estar entre aqueles que integram o seleto elenco de artistas do Bagagem seria uma honra. Por outro lado , a Musicoteca joga a bola para vários lados. Tem mais acessos, é um blog vivo, colorido, e acredito que vá ampliar o público que terá acesso ao disco.

*Kristoff, como foram os processos de seus discos anteriores Em pé no Porto (2007) e Outra Cidade  (2003 )?

Kris –  Do “Em pé no porto” eu já contei. Já o “A outra cidade” é um disco feito por três compositores, Makely Ka, Pablo Castro e eu. Foi concebido de 2000 a 2003, reúne 44 músicos de BH, entre intérpretes e instrumentistas. Um disco de estréia, um lugar  onde a gente tenta desaguar mil afluentes e influências, desejos, em suma, dá pra imaginar o que é com esse tanto de gente envolvida. Uma grande mistura, e uma vontade norteando aquilo tudo: colocar Belo Horizonte, a cidade sempre “outra”, aquela que existe e não, reposicioná-la como um lugar que produz, que inventa, que existe sim como laboratório cultural. Honestamente acho que só hoje, passados treze anos, nossos propósitos estão mesmo ocupando esse lugar. BH fervilha nesse momento, é um grande barato. Bom que haja alguns que pensam que isso teve um começo, fico grato, mas me delicia ver que como é hoje em dia.

* Como a tecnologia te auxilia em seus processos composicionais?

Kris – Muito! Em tudo. Desde o uso de um editor de partituras até os softwares voltados para a programação eletrônica. Quando antes eu tentava resolver tudo no violão e voz, a harmonia era o grande revelador do caminho. Ainda é um pouco para mim, mas há momentos onde eu já me sinto mais relaxado com isso porque começo a ouvir na cabeça uma outra possibilidade de desenvolvimento que prescinde do encadeamento de acordes, vai mais para a coisa dos timbres , do arranjo, outras soluções. Aí o simulacro (no caso dos samplers) ou a síntese de som (criar timbres é tão maravilhoso como alinhavar notas) são lugares do exercício da imaginação, e isso se estende à mixagem, na verdade esta se funde ao processo todo.

*Quais são as principais motivações para seus trabalhos?

Kris – O próprio exercício criativo é um grande motivador, uma auto motivação. Mas sim, também a possibilidade de levar isso a outros corações. Comunicar mundos internos, fazer contato com pessoas para além das conversas do quotidiano. Lembrar de algo nunca visto, compartilhar a saudade de maravilhas ainda não experimentadas. Eu faço para ser ouvido, eu quero ouvir das pessoas o que acharam. As audições compartilhadas foram um ensaio de um mundo ideal para mim. Se fosse possível eu ouviria o disco todo ao lado de cada ouvinte e depois partilharíamos um momentinho de silêncio grande muito precioso para mim.

* Quais são as suas afinidades estéticas musicais?

Kris – Vixe….

*Como você se relaciona com o seu espaço de trabalho? Como é formado o seu set para trabalhar? Você tem um homestudio?

Kris – Não.  Sou bagunçado, uso a casa toda para a música ou para o que esteja fazendo. O laptop + controlador midi cada hora estão num lugar. Se eu vou escrever partituras uso o desk, para as programações uso o laptop, aí solto tudo e pego a guitarra com os efeitos, microfone e efeitos de voz, passo para o violão, volto para o laptop….

*Você compõe ou escreve nos aeroportos, praças e salas de espera? Você adota a idéia laptopia?

Kris – Compor não, mas desenvolver alguma coisa é possível, mas como eu te disse, passo de uma coisa a outra de modo que prefiro fazer isso em casa.

*Se você encontrasse um Cd seu sendo vendido por camelôs. Como você veria isso?

Kris – ADORARIA!

*A presença da tecnologia na música sinalizaria a decadência ou a evolução na cultura musical?

 Kris – Não há nada inerente à essa presença. Os buscadores, os artistas que se lançam numa intensa busca de caminhos interessantes, seja para algo que pareça inédito, seja para algo que recrie experiências anteriores, ou seja, que evoluam, para frente, para os lados ou para trás, podem fazer isso com computadores ou instrumentos acústicos. O uso da tecnologia dentro da indústria do entretenimento faz algumas pessoas acharem que a música está decaindo, mas isso é uma confusãozinha boba: quer música, vai atrás, sem reclamar da TV ou do rádio, você é quem está procurando no lugar errado. A internet é muito confusa mas como diz o Paulinho da Viola, “as coisas estão no mundo” e você pode ir encontrando vias de acesso as coisas interessantes, você pode ouvir um som novo e maravilhoso por dia sem repetir nenhuma vez até o fim dos seus dias e não terá ouvido tudo de interessante que tem sido produzido no mundo.

*Criar digitalmente transformou as motivações dos compositores?

 Kris – As minhas sim, completamente. Acho que irreversivelmente… (risos)

*Quando faz shows leva o seu set de casa? Ele é composto por vários laptops ou outras aparelhagens diferentes?

 Kris – Até o momento eu ainda atuo como um cancionista, aquele que canta e empunha um violão, mas o Pedro Durães leva exatamente o que temos na sua salinha de ensaio, laptops, controladores midi e processadores. Eu levo o meu mas é Durães quem opera, enquanto sustento aquilo que é o eixo da escuta da canção: melodia e letra.

*Os fluxos de música sem suporte físico fazem produtores e consumidores dependerem menos da indústria?

 Kris – Claro, mas coloca os produtores e consumidores no meio da deriva e cada um tem que dar muitas braçadas para chegar a algum lugar desejado. Coloca a questão da divulgação como tão importante que alguns artistas dedicam mais tempo a isso que à criação, sob pena de ficarem no ostracismo se desistirem dessa batalha. Bem, às vezes isso traz o efeito colateral em seu trabalho como criadores:  tornam-se melhores em divulgação do que em arte.

*Como você vê a facilitação da aquisição, divulgação e distribuição de repertórios musicais via internet?

Kris – A internet facilita tecnologicamente, mas cria outras necessidades, cria uma expertise que muitos músicos não tem. A maioria dos caras que eu acho fodas mesmo não têm essa manha, eu mesmo não tenho, e então… nadamos até aqui achando que quanto melhor fosse o que produzimos, mais correspondência encontraria nos ouvintes, mas hoje vence quem se habilita para essas novas exigências: saber figurar na internet de algum modo.

 *O que você pensa sobre a ‘pirataria’ de Cds e a distribuição comercial ilegal?

 Kris – Não me atinge.

 *Como você vê a questão autoral no processo remix. Tudo bem colagens e recolagens?

 Kris – Tudo bem se for música boa, tudo mal se for o contrário. E tudo certo, se for feito corretamente. Pegar uma coisa do outro sem o outro saber e fazer uma grana com aquilo é roubo. Entrar num acordo (que pode até ser pela gratuidade) é o caminho certo. E daí, que venham novas músicas boas (o que muitas vezes os remixes não conseguem ser).

* As artes sempre estiveram associadas às novas tecnologias e, nesse sentido, a música é um exemplo marcante. Com o crescente avanço tecnológico, como você imagina a música do futuro? 

Kris – Eu não tenho dom nato para essas antevisões, posso falar apenas do meu desejo. Desejo que a música no futuro continue envolvendo o planeta inteiro, sendo mãe e filha, mistério insondável que instiga criadores e possibilita um contato extra ordinário entre as pessoas.

LINKS DO KRISTOFF

http://www.amusicoteca.com.br/?p=8866

https://www.facebook.com/kristoff.silva.3?fref=ts

https://myspace.com/kristoffsilva

http://letras.mus.br/kristoff-silva/

https://soundcloud.com/deriva-kristoff-silva/deriva

http://www.ouvirmusica.com.br/kristoff-silva/#mais-acessadas/1252880

http://musica.com.br/artistas/kristoff-silva/no-seu-site.html

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