Gil Assis

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Gilberto Assis é compositor e produtor musical, além de atuar como professor no Ensino Superior. Estudou Áudio em São Paulo no IAV, Masterização no SAE e Mixagem em Londres no Alquemea College. Atualmente leciona Produção Musical e Tecnologia de Áudio na FASM e na Universidade Anhembi-Morumbi (SP). Sua dissertação de mestrado é sobre música contemporânea, mais especificamente sobre o compositor Edgard Varèse. Suas composições já estiveram presentes em diversos projetos internacionais, entre eles, EMM em Kansas City, Frammentazione, na Itália, AI MAAKO, no Chile e 60X60 em NY. Compositor selecionado pelo Projeto Rumos do Itaú Cultural, em 2008. Já criou trilhas sonoras para o Balé da Cidade de São Paulo, Companhia Siameses e, ao lado de Tom Zé, compôs a trilha Santagustin para o Grupo Corpo de Dança. Produziu e arranjou diversos Cds do Compositor Tom Zé, vários Cds de música instrumental brasileira e, mais recentemente, produziu e arranjou o CD Chiquinha em Revista para o selo SESC.

ENTREVISTA (Cd O que há de concreto na canção?)

*Como surgiu a idéia desse projeto Cd O que há de concreto na canção?

Gil: Estava lendo alguns poemas concretos e pensei no desafio que seria musicá-los, uma vez que eles são, na maioria, muito curtos e essencialmente visuais. Os tropicalistas já haviam se aproximado dos poetas paulistas, alguns poemas de Arnaldo Antunes são musicados por ele próprio ou talvez já nasçam como canções, mas não tenho conhecimento de um trabalho que reúna canções compostas a partir de poemas concretos, pós-concretos ou visuais de autores de diferentes partes do Brasil. Achei que seria uma boa idéia e imediatamente pensei no título: “O que há de concreto em São Paulo”. Assim que tomou conhecimento, a Ana Fridman mudou para “O que há de concreto na canção?”.

Ana: Meu pai é artista plástico e esteve um bom tempo envolvido com o movimento concreto, pois é também um movimento que se refere às artes visuais, além da poesia. Tive acesso à várias coleções de poesia concreta que ele tem e o Gil veio me falar dessa ideia de fazer esses poemas virarem canções. Achei um desafio interessante e inédito, olhava aqueles poemas, de poucas palavras, mas com muitos significados e imagens, e começamos a trabalhar a partir dessa idéia inicial.

* Como surgiu a parceria e a escolha dos músicos e intérpretes?

Gil: Já havia desenvolvido um projeto de arranjos de obras menos divulgadas de Chiquinha Gonzaga ao lado de Ana Fridman e dessa parceria nasceu o Cd Chiquinha em Revista, com a participação de Ná Ozzetti, Susana Salles, Vange Milliet, Carlos Careqa e Rita Maria, dos quais, dois participam também do Cd O que há de concreto na canção?. Eu e a Ana temos estilos diferentes de composição, pensamos a música de maneiras diferentes, mas gostamos do que o outro faz e isso gera uma diversidade que só enriquece o trabalho. Antes do início do processo de composição, conversamos muito sobre o conceito e como o projeto seria conduzido.  A ideia geral era fazer uma canção que representasse uma leitura espontânea do poema, uma versão entre tantas possíveis. Inicialmente escolhemos os poemas a partir da leitura de autores de diferentes partes do país e mesmo fora dele, como o português Mello e Castro, o baiano Antonio Risério, o grupo paulista Noigandres e muitos outros. Em um primeiro momento separamos as poesias aparentemente mais “musicáveis” e depois cada um escolhia aquela com a qual mais se identificava para compor a música. Inicialmente as coisas estavam bem divididas entre nós, cada um compunha e arranjava a sua música, mas no decorrer do processo as coisas foram se misturando: eu compunha a parte A e a Ana a parte B, eu compunha a música e a Ana fazia o arranjo etc. A gente já compunha a música pensando no intérprete, tinha que ser o Marcelo Pretto para cantar “Nome” de Arnaldo Antunes e a Ana só conseguia ouvir a voz da Ná cantando “Aves” de Paulo Leminski. O mesmo aconteceu com os outros intérpretes: Carlos Careqa e Zeca Baleiro e Priscilla Frade.

Ana: Aqui posso acrescentar que minha primeira parceria com o Gil foi meu primeiro CD autoral de música instrumental “O tempo, a distância e a contradança”. Ele foi o produtor musical desse disco, mas já sabia que ele era compositor e havia escutado algumas trilhas que ele tinha composto para espetáculos de dança. Também notei estilos diferentes em nossa forma de compor, mas achei que eram bastante complementares: eu trabalho de uma forma mais intuitiva, costumo montar as coisas de uma vez só; o Gil é mais metódico, pensa bastante antes de fazer e sempre me surpreende o resultado do processo dele, contrapontos incríveis, coisas que me fizeram inclusive pensar mais também! O que aconteceu é que fomos fundindo nossos estilos durante os trabalhos que fizemos, mas posso dizer que nesse trabalho “O que há de concreto na canção?” foi também onde mais nos misturamos como criadores. A escolha dos intérpretes foi feita durante as composições, como mencionou o Gil. Também na poesia “Ali”, que foi feita pelo Paulo Leminski para sua esposa Alice Ruiz, uma grande poetisa e amiga da Ná Ozzetti, não poderia imaginar outra pessoa para cantar senão a Ná! Enfim, escolhemos com muita calma e cada canção foi composta mesmo para o intérprete que a cantou no disco.

*Como foi o processo de gravação em Estúdio?

Gil: Escolhemos para as gravações, a sala viva do “Espaço Cachuera” que, por ser bem grande, possibilitaria a captação de todos os instrumentos ao mesmo tempo. Eu queria um tipo de gravação old school com todos os instrumentos gravados ao mesmo tempo, menos as vozes que seriam gravadas separadamente. Convidamos a cantora Priscilla Frade para cantar nos ensaios e fazer a voz guia no estúdio, mas gostamos tanto que ela acabou participando do Cd e também dos shows de lançamento. A gravação “ao vivo” possibilita uma interação maior entre os músicos e resulta em uma sonoridade mais “natural”, que eu acredito estar mais em acordo com o conceito do Cd. A formação instrumental geral foi fixa: Ana Fridman ao Piano, eu no Baixo e violão, Mario Checchetto no clarone e sax, Vitor Lopes na gaita, Caito Marcondes na percussão e  Sergio Reze na bateria e gongos melódicos.

Ana: Essa maneira de gravar todos juntos realmente é a melhor forma do trabalho sair orgânico, sem ter aquela cara de “gravado em estúdio”, mas sim onde cada músico não só toca, mas responde ao estímulo dos outros músicos que estão com ele. Isso faz o show ser bem parecido com o resultado gravado. Houve também essa uniformidade com a formação, quase todas as músicas foram feitas para piano, sax, gaita, baixo, bateria e percussão. Tocamos com esses instrumentistas há bastante tempo, também são parcerias antigas e isso confere ao trabalho uma interação muito importante, um resultado vivo, que respira…

* Como o SESC recebeu o projeto?

Gil: O pessoal do selo Sesc quis ouvir as músicas e felizmente eu já havia pré-produzido muitas delas em uma versão meio acústica-meio MIDI, com a Ana cantando algumas e eu cantando outras. Eles gostaram muito e resolveram investir no projeto.

Ana: Sim, para que o SESC ouvisse, tivemos que elaborar os arranjos, gravar e cantar com tudo, mesmo não sendo cantores, para que o SESC tivesse uma idéia real do projeto. Convencemos não só o SESC, mas também os cantores que convidamos para cantar de verdade aquelas músicas!

*Como têm lidado com a divulgação e distribuição do CD O que há de Concreto na Canção em redes sociais? 

Gil: O selo SESC tem um site dedicado ao seu catálogo, lá você encontra tudo sobre o Cd, incluindo um teaser promocional e lá ser quiser, você também comprá-lo. Acredito que as redes sociais tiveram um impacto grande no show de lançamento, muitas fotos do making of  vinham sendo postadas há algum tempo no facebook e em seguida divulgamos o flyer do show e tivemos uma boa resposta de público nos dois dias

Ana: Divulgamos também o disco nas faculdades onde trabalhamos e muitos alunos vieram ver este trabalho. É muito interessante como as gerações mais novas se interessaram pela sonoridade que criamos.

*As composições trazem uma delicadeza contemporânea. Afinal, o que há de concreto na canção?

Gil: Essa indagação pode se juntar à outras: o que caracteriza a canção produzida atualmente? Quais são os temas centrais? O que pode ser considerado MPB? As temáticas atuais refletem nossa época? Ao ouvir certas canções, às vezes, tenho a impressão de que foram compostas há décadas, pois eu não penso e nem sinto mais as coisas dessa maneira… As canções costumavam espelhar o seu tempo e eu acho que muito embora a poesia concreta tenha nascido há mais de cinquenta anos ela permanece atual e ainda influencia as novas produções, daí nossa opção por musicá-las.

Ana: Acho que sempre há uma maneira nova de dizer as coisas, ou de transformar o que já foi dito em outras imagens, reler, rever. O que há de concreto é que nada fica estático, as coisas vão se transformando com o tempo. Trabalhar com a poesia concreta abriu para mim uma janela nova na maneira de pensar uma canção. Digo isso porque costumo trabalhar mais com músicas instrumentais e trilhas sonoras, mas as letras daqueles poemas abriam cada vez uma nova paisagem para mim. Tentei olhar a canção como imagem e a partir daí e da parceria com as coisas que o Gil criava a idéia de canção foi literalmente se concretizando. O que há de concreto então é que há sempre um novo olhar para o que já aconteceu. Esse novo olhar faz as gerações se encontrarem, os mais novos conhecerem e falarem do movimento da poesia concreta. E tivemos o maior cuidado para mostrar nosso respeito e admiração pelos poetas, criando canções que mostrassem isso também. Um respeito ao tempo que foi para seguir em frente. Isso é a contemporaneidade para mim, e com certeza há uma grande delicadeza nisso.

ENTREVISTA (Abril de 2013)

* Vamos iniciar conversando como os atuais meios tecnológicos sonoros auxiliam ou limitam o trabalho nas composições e nas produções musicais?

Gil Assis – Utilizo vários recursos oferecidos por software para realizar minhas composições ou arranjos e utilizo, também, a tecnologia de gravação. A composição surge sempre a partir de uma idéia e, em seguida, busco nos recursos tecnológicos uma forma de viabilizar essa idéia. Por exemplo, uma contribuição dos software de edição de áudio é que eles permitem que você experimente rapidamente alternativas de manipulação do material sonoro. Nesse processo, você pode ter surpresas muito agradáveis.

* A presença da tecnologia sinalizaria a decadência ou a evolução na cultura musical?

Gil Assis – Nem uma coisa, nem outra. A decadência teria como pressuposto uma ascensão e a evolução pressupõe uma linearidade temporal, na qual, ocorreria uma melhora constante da qualidade musical. Não visualizo a música dentro desses parâmetros. A tecnologia oferece um meio para se fazer música, se sai som, cria-se música, seja a partir de um violino, um tambor ou um sintetizador. Assim como um violino não poderia ser responsável pela evolução ou decadência da música, um sintetizador, também não, afinal ambos são meios. Se acabasse a energia elétrica, a música acabaria?

*Algum orquestrador ou arranjador brasileiro influenciou o seu trabalho? A exemplo de Rogério Duprat?

Gil Assis – Não sinto nenhuma influência direta mas admiro vários arranjadores brasileiros, entre eles, Luiz Eça, Radamés Gnatalli, Francis Hime, Wagner Tiso e, é claro,  Rogério Duprat.

* Como fica a questão da sobrevivência relacionada com a sua função criativa? A tecnologia auxilia nesse sentido?

Gil Assis – Com o auxílio do computador, faço minhas trilhas praticamente sozinho. Gravo alguns instrumentos, uso samplers e chamo alguns músicos quando necessário. Isso agiliza o processo e viabiliza alguns trabalhos com orçamentos mais baixos.

*  O que mudou com a passagem da tecnologia analógica para a digital? Somente a velocidade do trabalho?

Gil Assis – Tomando como exemplo o processo de produção musical em estúdio, não houve, na verdade, uma passagem do analógico para o digital. O analógico continua fazendo parte do processo, tocamos em guitarras, ouvimos em caixas acústicas, gravamos com microfones em preamps, todos analógicos. A tecnologia digital entrou no meio disso tudo, gravamos em hard disks a partir de software que pemitem um alto grau de manipulação do material gravado. Neste ponto se encontra grande parte de sua contribuição.

* O que a tecnologia digital trouxe realmente de novo para a produção musical?

Gil Assis – Software que oferece suporte para a composição musical, possibilidades de manipulação do áudio em tempo real, rapidez e eficácia na edição do áudio. Além disso, a tecnologia digital age como uma parceira. Começamos com uma idéia que vai se ampliando a partir dos recursos digitais. Sabemos que podemos contar com isso. Os arranjos não precisam ser fechados como quando trabalhávamos, exclusivamente, com meios analógicos.

* Existe algum problema no uso da mesma nomenclatura “Música Eletrônica” para os diferentes gêneros popular e erudito?

 Gil Assis – Não vejo problema algum.

* O que você faz hoje que não faria anteriormente com o sistema analógico?

Gil Assis – Bem, o sistema analógico é mais caro que o digital. Na verdade, mesmo hoje em dia, você não pode prescindir do analógico. Pelo menos um fone de ouvido você vai precisar e tem, também, os microfones e preamps analógicos. Só com o digital, você ficaria limitado ao uso de samplers e sintetizadores. O sistema digital facilita a edição e, também, os experimentos. Você pode experimentar uma combinação de sons e caso não goste, o processo pode ser revertido rapidamente. Isso não daria para fazer no domínio, exclusivamente, analógico.

* Você acha que com a música espectral de Gérard Grisey (1946-1998), Tristan Murail (1947), Kaija Saariaho (1952) a tecnologia acrescentou radicalmente algo na música? Eles já faziam essa música sem tecnologia digital. O q você pensa a respeito?

Gil Assis – Penso que a música desses compositores surgiu a partir de uma melhor compreensão do timbre possibilitada, principalmente, pelas novas tecnologias. No entanto, suas obras são essencialmente acústicas, apesar do uso eventual de meios eletroacústicos (Saariaho). Pelo que ouvi me pareceu que algumas obras de compositores como Varèse, Liget, Scelsi e até mesmo Stockhausen (Stimmung) são mais influentes nas obras dos espectralistas do que qualquer meio tecnológico.

* Poderia dar uma idéia de como é basicamente o seu processo  composicional?

 Gil Assis – Não sento para compor sem ter uma idéia muito clara do que vou fazer. Vou escolher o material sonoro em função da proposta do trabalho. Elaboro a composição a partir das características do material escolhido e, neste caso, o timbre é o elemento mais importante. Depois penso em como esse material será disposto no tempo. Para a elaboração rítmica conto com a parceria do computador. Você pode conseguir elementos rítmicos muito interessantes, complexos ou não, a partir da sobreposição dos materiais, por exemplo. A questão do pitch, também, está em função da idéia e escolherei maior ou menor tensão em certas partes da música com uma finalidade bem específica.

* Existem diferentes motivações ou outras inspirações presentes em seu ato criativo?

 Gil Assis – Como de compor ou arranjar sob encomenda, esse é o principal estímulo. Se for para um espetáculo de dança, a coreografia, o cenário, a iluminação e o figurino serão minhas principais motivações.

 * Você adota métodos específicos para trabalhar em suas criações musicais?

 Gil Assis – O método está em função da idéia, se eu precisar de apenas um acorde, farei a peça com esse material. Se o projeto precisar do sistema serial ou de elementos da música minimalista, eu vou usá-los.

* Quais são suas afinidades estéticas musicais?

Gil Assis – Em cada gênero musical eu posso encontrar pelo menos um foco para a minha escuta. Pode ser o texto, a textura, a elaboração melódica, o aspecto rítmico. Gosto de ouvir as combinações timbrísticas, as surpresas harmônicas, enfim, gosto de música.

*Graças à possibilidade de digitalização do som, como é pensada e gerada a música construída a partir das tecnologias sonoras/digitais?

 Gil Assis – O som ficou mais elástico, podemos compor uma música inteira a partir de um som gravado, por exemplo. São muitas possibilidades de manipulação sonora. O som pode ser esticado, comprimido, fragmentado e alterado em sua estrutura com bastante facilidade. O potencial de síntese sonora, também, cresceu muito a partir do digital.

*Como você se relaciona com o seu espaço de trabalho? Como é formado o seu set para trabalhar?

Gil Assis – Possuo um homestudio com tudo que necessito para trabalhar. Nele, encontro o ambiente perfeito para qualquer tipo de produção. Apesar disso, a composição começa fora do estúdio, muito provavelmente no carro ou em uma caminhada no parque. Só depois é que eu vou para o estúdio.

* Como é formado o seu homestudio?

Gil Assis – Equipamentos analógicos: Preamps, microfones dinâmicos de bobina, capacitivos e de fita, compressores, equalizadores e caixas acústicas. Tenho também um violão, um contrabaixo e vários instrumentos de percussão.

– Equipamentos digitais: sintetizador, computador, controlador MIDI, sampler, processadores de dinâmica, processador de efeitos e um módulo MIDI.

*   Você considera o estúdio de gravação um instrumento musical?

Gil Assis – Concordo com a idéia do estúdio como uma ferramenta composicional e, principalmente, em trabalhos de natureza colaborativa, você pode encontrar no estúdio um ambiente bastante favorável. Existem muitos dispositivos que produzem sons dentro de um estúdio de música, mas esses dispositivos produziriam sons mesmo fora dele. Portanto, o estúdio em si é um ambiente propício para a criação musical, pois possui muitos dispositivos geradores de sons, estes sim instrumentos musicais.

* Você compõe nos aeroportos, praças e salas de espera? Você adota a idéia laptopia?

Gil Assis – Penso que isso é mais para quem compõe e produz ao mesmo tempo. O pessoal da música eletrônica, por exemplo. O que, às vezes, acontece comigo é fazer algumas edições de áudio ou pré-mixagens apenas com o laptop e um fone de ouvido, mas nunca um projeto inteiro.

* A internet muda as relações entre produtores e consumidores de música?

Gil Assis – Quem produz música quer ser ouvido, seja através de apresentações, venda de Cds, mídia tradicional ou downloads. A internet agiliza o trajeto entre a produção e o consumo. Mesmo sem ser muito conhecido, você pode atingir um número enorme de acessos em uma semana, número muito maior do que atingiria fazendo shows durante um ano e, do ponto de vista da divulgação, isso é inédito. Antes só acontecia se você tivesse acesso à mídia tradicional, o que convenhamos sempre foi muito difícil.

* Os fluxos de música sem suporte físico fazem produtores e consumidores dependerem menos da indústria?

Gil Assis – No que diz respeito à internet sim, ninguém precisa da indústria para disseminar suas músicas, mas, por outro lado, como chegar às rádios e canais de televisão? Isso, é claro, para quem tem interesse em atingir esses meios.

* Como você vê a facilitação e agilização da aquisição, divulgação e distribuição de repertórios musicais via internet?

 Gil Assis – Na internet você pode encontrar vários canais de divulgação, a exemplo, das redes sociais ou sites específicos para esse fim e, quanto à distribuição, é preciso encontrar alternativas além das que já existem. Um ótimo exemplo disso é a iniciativa do Projeto Axial ao lançar um aplicativo de compartilhamento de música. O aplicativo se chama “bagagem” e pode ser instalado gratuitamente em seu computador. A partir disso, o consumidor tem acesso gratuito a vários títulos do catálogo. A idéia geral é a de que o lançamento de um trabalho musical não passe necessariamente pelo suporte físico, as músicas são gravadas, a arte gráfica é feita junto com as informações técnicas, vídeos e vai direto para a internet. Isso barateia em parte o processo de produção.Veja que eu não falei em dinheiro… estou falando em alternativas de produção, difusão e divulgação.  Você não perguntou: como ganhar dinheiro divulgando e distribuindo músicas pela internet? Num primeiro momento a idéia é compartilhar livremente suas músicas, sem compromissos estéticos alinhados aos interesses da mídia tradicional. Essa é a grande contribuição digital, um atalho que passa distante do que se vê, por exemplo, na TV aberta.

* O que você pensa sobre a transformação da noção autoral a partir da licença Creative Commons?

Gil Assis – Não houve transformação da noção autoral, o autor continua sendo autor mesmo licenciando sua música pelo Creative. O que muda com o Creative é que o autor escolhe a forma que sua obra poderá ser utilizada, ou seja, ele pode autorizar o download e não permitir o uso da obra para qualquer outro fim ou, por outro lado, ele pode permitir o uso da obra desde que seu nome seja mantido como autor e assim por diante. Mas, em qualquer caso, penso que ele será sempre o autor ou pelo menos co-autor.

* Como você vê a questão autoral na prática da apropriação de repertórios pelos DJs?

Gil Assis – Quando Duchamp levou o mictório para a galeria de arte, a empresa que o fabricou reinvidicou a autoria? A colagem é uma prática antiga nas artes e nunca foi problemática. Novos tempos, novos meios pressupõem novas práticas de criação sonora e se estamos repensando os modos de produção e difusão sonora, por que não repensarmos a noção autoral?

* Como você vê os problemas da ‘suposta’ democratização dos meios de criação?

Gil Assis – Democratização é exagero, mas facilitação pode ser empregada. Não podemos negar que o meio digital é mais acessível, tem muita gente produzindo suas músicas e vídeos em suas próprias casas. A questão do acesso em nossa sociedade é mais sério; deveria vir no pacote uma educação geral de alto nível e, também, o conhecimento musical. Só o meio não vai resolver.

LINKS DO GIL

http://rumositaucultural.wordpress.com/2010/05/31/gilberto-assis-e-o-rumos-na-tv/

http://www.youtube.com/watch?v=jGuWTEhiaFQ

http://www.youtube.com/watch?v=L1M3TNBPHpE

http://www.youtube.com/watch?v=PwvgQ28pmOg

https://soundcloud.com/gilberto-assis-rosa

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