Fernando Iazzetta

Fernando Iazzetta é professor na área de Música e Tecnologia do Departamento de Música da Escola de Artes da USP e coordenador do Laboratório de Acústica Musical e Informática (LAMI). Como compositor tem direcionado suas composições para diferentes formações camerísticas e meios eletrônicos. Suas obras foram apresentadas em diversos teatros e festivais de música no Brasil: Festivais Música Nova, Bienais de Música Brasileira Contemporânea, Encontro de Compositores Latino-Americanos, Encontro Internacional de Música Eletroacústica, FILE – Festival Internacional de Arte Eletrônica, Mostra SESC de Artes, Dança Brasil, Mostra de Artes do Fórum Cultural Mundial e no exterior Festival International de Musiques et Créations Electroacoustiques, Burges;  Festival Acousmatique International, Bruxelas; Festival des zeitgenössischen brasilianischen Tanzes. Como pesquisador suas áreas de interesse são: música e tecnologia, gesto, interação, acústica musical e desenvolvimento de programas e composições no ambiente de programação MAX/MSP. Ele tem diversos textos publicados em anais de congressos científicos, revistas ou livros especializados. Em 1993 publicou o livro Música: Processo e Dinâmica pela editora Annablume e, em 2009, Música e Mediação Tecnológica pela editora Perspectiva.

* Vamos iniciar conversando como os atuais meios tecnológicos sonoros auxiliam ou limitam o trabalho em suas composições e produções musicais?

Iazzetta – A tecnologia em si é uma ponte dessa rede intrincada. A questão é a maneira como se utiliza ou como se consegue realizar as conexões tecnológicas com aquilo que se busca. Como uma tese, se a pessoa conseguir fazer as conexões certas, terá uma tese bem ‘amarrada’. Outra pessoa exatamente sobre os mesmos assuntos, sem estabelecer essas conexões, com certeza comprometerá todo o trabalho. No caso da música, encontrar os software necessários e fazer as relações adequadas é que vão contribuir para fazer uma boa obra.

 * Se te pedissem para fazer um jingle, músicas para desenho animado ou trilha sonora para novela, você atenderia essa encomenda?

Iazzetta – Não, dificilmente faria.

* E uma trilha sonora para um balé?

Iazzetta – Para balé já fiz muito. Se tivesse energia para compor algo, comporia algo útil, não um jingle, não que não goste, mas acho que nem sei fazer isso direito. Não é uma questão ideológica, não tenho interesse em fazer jingle, se houver um jingle que por algum motivo me interesse não tenho nenhum pudor em fazê-lo. Por outro lado, se houver algum jingle interessante, um jingle que se faça de uma maneira alternativa ou por ser um jingle que pague bem, preciso saber qual a sua característica. O que muda é a qualidade do resultado. Resultado bom para um jingle é uma coisa, resultado para a música tecnológica é outra. Existe uma hierarquia, acho que são coisas diferentes. Se você faz música Tecno, algumas características ela deve ter, ou seja, fazer com que as pessoas ‘curtam’ e dancem. É uma música que pode elencar uma série de coisas que são características singulares à ela. Já a música eletroacústica esta voltada para a tradição de música erudita, a questão da forma, de compor as idéias, a questão da contemplação e da exploração sonora. No entanto, essas questões também podem existir na música Tecno. É que a partir da funcionalidade você está partindo de uma causalidade ao qual não acredito. Por exemplo, faço a música para atingir aquilo. Esse tipo de contexto é complexo, formando uma rede com milhares de coisas envolvidas. No entanto, não é a veia central, a única veia que existe. Alguma coisa tem que servir ao divertimento, o divertimento é uma coisa boa. O divertimento é uma coisa criativa, não existe nenhum pecado, não é algo ruim, a música existe para isso.

* Existe algum problema cultural no uso da mesma nomenclatura “Música Eletrônica” nos diferentes gêneros populares urbanos e nos eruditos?

Iazzetta – Sem importância.

* Poderia dar uma idéia de como é basicamente o seu processo  composicional?

Iazzetta – Basicamente trabalho com o impacto de materiais sonoros. O material sonoro é fundamental, a partir dele é que geralmente vem a idéia composicional. Boa parte das vezes, essa idéia composicional vem também das ferramentas que estou usando naquele momento. A ferramenta se constitui também como material composicional. Dependendo do tipo de  ferramenta, ela me estimula a fazer determinados procedimentos de processamento sonoro que acabam levando a criar uma idéia musical. A partir do momento que tenho um certo material sonoro é  que crio uma idéia.

* Existem diferentes motivações ou outras inspirações presentes em seu ato criativo?

Iazzetta – Essas motivações variam muito. Nos últimos anos percebi que há uma tendência a lidar com elementos que não fazem parte da tradição musical, seja ela contemporânea ou não, eletroacústica ou não. Os procedimentos musicais são mais alternativos, periféricos e especialmente conexões da música com outras linguagens, ou seja, trazer outras diferenças para dentro da música. Esses três elementos estão mais para os tipos de instalação e são típicos do espetáculo informático. Trabalhei muito com a performance e música feita para dança contemporânea trazendo essas referências que estão fora da música.

*Você adota métodos específicos para trabalhar em suas criações musicais?

Iazzetta – Começo do material importante e interessante que gera a idéia composicional. Parto do som, das ferramentas que estou usando para criar e manipular as duas coisas que estão muito juntas. O som de uma voz é usado de uma determinada maneira que gera a idéia composicional e que está ligado diretamente com a tecnologia. Essa maneira de manipular o som está ligada ao processo tecnológico.

* Você acredita que a relação estabelecida com a sua criação seria uma investigação? Seria uma pesquisa criativa?

Iazzetta – Não necessariamente. Sou pesquisador mas não de composição, pesquiso na área de tecnologia e na área que chamamos de ‘sonologia’. Pesquisar seria isso, não necessariamente a composição teria que estar diretamente vinculada. A pesquisa continua sendo uma atividade que eu faço como prioridade e a composição está em segundo plano.

*O que seria basicamente a área que compreende o estudo da ‘sonologia’?

Iazzetta –  Sonologia é um termo que está começando a ser usado no Brasil para delimitar uma área que engloba várias frentes de pesquisa, de criação, que estavam conectadas informalmente para tornar essa conexão um pouco mais formal. São as áreas referentes à tecnologia, composição e eletroacústica que estão ligadas diretamente à acústica da análise musical, a partir das ferramentas tecnológicas. Enfim, de certa forma vinculadas às questões musicais cujo centro de atenção é o som.

* Quais são as suas afinidades estéticas musicais?

Iazzetta – Com o repertório erudito, até mesmo por ser professor do Departamento de Música, especialmente, o século XX até os dias atuais.  Obviamente com a música eletroacústica e a música popular brasileira, o samba.

* O resultado sonoro de suas obras possuem uma característica mais brasileira ou européia?

Iazzetta – É difícil julgar o meu trabalho. Dizem que há alguma coisa de brasileiro mas acho que tem muito haver com a minha formação de musicista e isso acaba fazendo com que eu trabalhe a questão do tempo, do ritmo. Dos anos 70 para frente há uma dimensão que não é da música instrumental, por exemplo, uma nota pode durar uns 2 ou 3 segundos. Talvez o fato de eu ter uma formação em percussão, influencia um pouco essa idéia de som curto para a composição da eletroacústica. Uma das conseqüências é que você tem uma questão rítmica que fica muito mais evidente. Se você trabalha com projeções sonoras, você pode escolher compositores de música eletroacústica de diferentes nacionalidades, como um argentino, francês ou um português.

* Como você vê um compositor erudito brasileiro com ‘cara’ de europeu? Existe algum comprometimento?

Iazzetta – Acho que faço música com materiais brasileiros, sou brasileiro e me esforço porque acho que tenho alguma noção de música popular.

 * Graças à possibilidade de digitalização do som, como é pensada e gerada a música construída a partir das tecnologias sonoras/digitais?

Iazzetta – Quanto às ferramentas de trabalho, depende do momento. Basicamente nos últimos dez anos tenho usado dois tipos de tecnologia. O processamento espectral que consiste em manipular aspectos sonoros, trabalha-se mais no nível de montagem e de corte. O que faço na verdade, no nível de montagem é processar som de uma maneira mais incisiva. A outra ferramenta que utilizo é o Max que é uma linguagem de programação que você constrói seus próprios programas. Ele faz com que você consiga implementar não só a produção do som, gravar ou manipular mas implementar idéias originais. Boa parte dessas ferramentas são construídas através de uma reflexão composicional, é diferente se você pegar um programa de gravação que o DJ usa. Esse programa já vem pronto com os ‘patchs’ para você fazer os padrões já estabelecidos.

* Geralmente, como você inicia uma idéia criativa? Pensando conjuntamente com a tecnologia? Como se dá o seu processo criativo inicial?

 Iazzetta – A questão é que a música ocidental tem uma tendência a ser auto referencial. Dessa forma você tem um acorde que se refere a outro acorde, uma forma que se contrasta com outra, ou seja, as referências são musicais. Portanto, são eternas na linguagem musical e o que eu tenho buscado fazer especialmente nos últimos anos, é lidar com as diferenças externas; pode ser um texto, uma fotografia, um gesto, um ambiente, uma maneira, um procedimento de pensar a forma artística.

LINKS DO IAZZETTA

http://www.facebook.com/fernando.iazzetta?fref=ts

http://www.eca.usp.br/prof/iazzetta/

http://www3.eca.usp.br/cmu/fernando.iazzetta

http://www.musica.ufrj.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1221:especial-fernando-iazzetta-em-eletroacusticas-&catid=39:gera

http://www.cibercultura.org.br/tikiwiki/tiki-index.php?page=Fernando+Iazzetta

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