Felipe Julián

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Felipe Julián é produtor musical e membro do grupo Projeto Axial. Responde também pelo DJ Craca, seu projeto solo voltado para as pistas. Além destes, realiza trilhas sonoras para teatro, dança e cinema. Muitas dessas trilhas são executadas ao vivo durante as exibições dos filmes ou performance dos bailarinos. Atua também como artista plástico criando instalações sonoras em espaços públicos ou em instituições culturais. É professor universitário, tem especialização em educação no ensino superior e, atualmente, desenvolve pesquisa de mestrado em modos relacionais da trilha sonora no cinema.

ENTREVISTA (Projeto Luminescência)

*Felipe você poderia nos contar o que venha a ser o projeto LUMINESCÊNCIA no evento III Mirada?

 Felipe – A pedido do SESC Santos, criei uma instalação audiovisual para o foyer do teatro. Era pra Virada Cultural de Santos. A instalação funcionaria a noite toda.  Quando cheguei ao espaço para visitá-lo, tratava-se de um amplo salão com um “testeira” de concreto armado muito bonita. Seria impossível não projetar imagens sobre ela. Então, amarrando um conceito com outro, cheguei ao projeto LUMINESCÊNCIA cujo objetivo seria submergir os visitantes num universo aquático. Daí a idéia de que a projeção ocupasse 360 graus. Trata-se de um ambiente imersivo, realmente. Para realizá-lo precisamos de 4 projetores operados por dois computadores sincronizados por um terceiro. Com os cálculos que realizamos foi possível cobrir todo o entorno do espaço e ainda projetar por boa parte do teto. Como o ambiente está repleto de vidros que o separam do teatro e da administração da unidade, surgiu um imprevisto mas muito bem vindo em reflexo espelhado. Isso nos deixou meio loucos durante o processo de mapeamento da projeção mas no final isso produziu um resultado ainda mais interessante.

https://vimeo.com/98669793

*Como foi o processo de criação, construção e realização dessa Instalação Audiovisual?

Felipe – Após ter recebido o convite do SESC para criar essa obra nesse site specific, retomei um material pesquisado junto ao coletivo TRIADE acerca da cidade de Santos. Em 2013, tive o prazer de colaborar com a criação de um audiotour (http://www.sescsp.org.br/programacao/11522_TRIADE+TOUR+SANTOS) fantasticamente roteirizado por essas meninas do TRÍADE. O processo de pesquisa ao qual elas se submeteram para chegar a esse roteiro final envolveu entrevistas com arquitetos e urbanistas além da coleta de dados históricos acerca da cidade de Santos. E Santos teve essa processo de urbanização muito peculiar por conta de ser o acesso ao mar para a cidade de São Paulo e por conta também dos planos de saneamento iniciados por Saturnino de Brito. Quando o SESC Santos fez esse convite, pensei que seria muito natural combinar a minha pesquisa estética sobre os movimentos fluidos (que já venho utilizando desde o começo do projeto CRACA)  à história de Santos. Assim, produzir essa instalação buscando proporcionar uma sensação de imersão subaquática no visitante.

*Como se dá esse processo artístico de criar uma Instalação Audiovisual Imersiva totalmente reagente à música em tempo real?

Felipe – A possibilidade de fazer as imagens digitais, projetadas, reagirem a impulsos sonoros vem sendo explorada já nas apresentações musicais que faço no meu projeto Craca. Na verdade, hoje em dia, ficou bastante facilitada essa coisa da amplitude e freqüência de um som movimentar parâmetros de processamento de uma imagem. Há muitos software que permitem e facilitam esse processo. Já que nesse caso específico da LUMINESCÊNCIA, as pessoas estariam bastante tempo no ambiente da instalação dado o fato de que esse espaço seria também uma sala de espera para o restante da programação da noite. Então me pareceu que haveria tempo para que o público experimentasse as muitas nuances da obra. E a audioreatividade é um convite à essa experimentação.

*Qual é a proposta desse projeto intitulado Arquitetura Dançante?

 Felipe – Arquitetura Dançante são esse conjunto de performances audiovisuais (ou músico imagéticas) que venho realizando como DJ CRACA ou como Felipe Julián mesmo onde o suporte à performance é um espaço arquitetônico e não um palco tradicional. Isso é o que pode ser visto no vídeo da apresentação do CRACA na abertura do III Mirada no SESC Santos: https://vimeo.com/104723555

 *Por que a escolha de criar uma zona autônoma de desorganização temporária?

 Felipe – A idéia com o projeto Arquitetura Dançante é criar espaços de imersão particularmente festivos e dançantes onde a adulteração do espaço arquitetônico por meio do videomapping aliado à musica, sejam a motivação para a recontextualização temporária do uso desse espaço. Novamente o vídeo acima é um bom exemplo disso. Olhando o vídeo parece que você se encontra numa ‘balada’ com muitas pessoas e imagens projetadas. Mas se seguir assistindo perceberá que o espaço está longe de ser um palco ou uma pista de dança. Na verdade o espaço é bastante irregular e subdividido. Seria, a princípio, um espaço pouco adequado para uma ocupação estilo ‘festa’. Mas, a partir do momento em que o próprio espaço se movimenta, então são sugeridas novas formas de ocupação deste. É o que pode ser visto por volta dos 2:42 do vídeo onde há uma espécie de plano seqüência onde a câmera circula trombando nas pessoas que lá estavam. Apesar da tremedeira na câmera, mantive essa seqüência no vídeo pois ela revela a realidade do que estava acontecendo lá. Há um espaço inicialmente planejado para um tipo de atividade, mas este espaço está temporariamente tomado por uma ocupação que pretende subverter seu uso.

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ENTREVISTA (Projeto Axial)

* Vamos iniciar conversando sobre como é a sua banda Projeto Axial? Quando e como surgiu?

Felipe – Projeto Axial surgiu em 2003 como somatória de minhas pesquisas e interesses em musica eletroacústica e eletrônica e a pesquisa que a Sandra Ximenez havia feito junto ao seu grupo A Barca circulando pelo Brasil e interagindo com dezenas de comunidades tradicionais, gravando, acervando e tocando juntos. Desses dois interesses distintos surgiu uma metodologia diferente de fazer canção. Foi oAxial.  Desde então temos criado narrativas sonoras que unem esses dois mundos e outros mais que nos interessam como a literatura, a dança contemporânea e as artes visuais. O Axial deveria ter sido uma performance multimídia apenas mas acabou virando banda.

*Do que se trata, exatamente, o aplicativo de compartilhamento Bagagem? Como foi desenvolvido?

Felipe – Mediante o marasmo do mercado brasileiro que, em geral, aguarda as determinações do mercado americano para tomar atitudes, decidimos que nosso terceiro disco seria lançado via um aplicativo (o que na época ainda era raríssimo no Brasil e no mundo todo para projetos independentes). Então pensamos muito e geramos um formato que fosse mais do que uma repetição do padrão CD em ambiente virtual. Decidi misturar uns conceitos antigos que estavam voltando à moda (A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica Walter Benjamin) com a conversa de um cara bastante bem informado sobre tecnologia das redes (Pierre Levy) e chegamos nesse formato que, ao unir música com vídeos e rede social, permitiria a recuperação da experiência sensorial que Chion chamou de Audiovisão e que a gente gosta de dizer que tem a ver com aquele nosso velho e perdido hábito de ouvir um vinil vendo seu maravilhoso encarte.  O bacana dessa proposta é que eu não tinha muito dinheiro pra realizá-la. Teria o equivalente à uma prensagem de 1000 CDs.  O que fazer então?  Prensar ou fazer o software?  Fizemos o soft e em um mês distribuímos mais de 1000 unidades virtuais. Daí em diante, ele continuou se auto-distribuindo e em um ano tínhamos ele funcionando por conta própria em mais de 30 países. A gente só havia enviado pro Brasil e Portugal que eu me lembre.

*Felipe como os atuais meios tecnológicos sonoros auxiliam ou limitam o trabalho nas composições e nas produções musicais?

Felipe – Vamos deixar essa para uma outra entrevista? Poderia escrever horas sobre isso. É minha área de pesquisa.

 *A presença da tecnologia na música sinalizaria a decadência ou a evolução na cultura musical?

Felipe – Decadência de jeito nenhum! Quem disse isso?  Pra mim, sinaliza democracia e praticamente a materialização de uma utopia que seria a de que a arte não é mais monopólio do artista.

* Como fica a questão da sobrevivência relacionada com a sua função criativa? A tecnologia auxilia nesse sentido?

Felipe – Eu vivo de ensinar os outros a usar a tecnologia criativamente. Nesse sentido, considero que tenho um sonho realizado. Também ganho dinheiro fazendoshows, trilhas sonoras e outras artes. De toda forma, creio que como todo mundo que faz as coisas do jeito certo num mundo onde fazer errado dá mais grana, estou sempre ralando pra fechar as contas.

*O que mudou com a passagem da tecnologia analógica para a digital? Somente a velocidade de trabalhar?

Felipe – Vixe!  Esse é outro assunto que eu posso falar muuuuuiiiito!  Não é só a velocidade.  A mudança mais importante é a sublimação do suporte. Isso significa que todos têm acesso a exatamente a mesma coisa. E dizer que o Acre tem acesso à exatamente o mesmo material que São Paulo, é uma mudança de paradigmas! No âmbito musical essa sublimação do suporte permite a simulação. Isso não era possível antes. Eu não preciso que a coisa aconteça de fato. Eu preciso apenas concebê-la. Se posso conceber conceitualmente, então está feita. Em outras palavras, a tecnologia digital aproximou a produção musical da velocidade do pensamento.  Para além deste assunto aquela discussão comparativa entre as qualidades do sistema digital de áudio em comparação com os sistemas analógicos. Pra mim, é estratégia mercadológica pra vender equipamentos e nada mais. Ah sim! E papo furado de técnico de som e músico sem assunto.

*Existe algum problema no uso da mesma nomenclatura “Música Eletrônica” para os diferentes gêneros populares e eruditos?

Felipe – Acho que existe sim. Na verdade várias dessas nomenclaturas estão confusas. Ninguém mais entende qual a definição de eletroacústico, por exemplo. E música concreta nem se fala.  E ainda temos as centenas de tags que o mercado usa pra classificar os gêneros da musica eletrônica popular. Mas, na minha opinião essa confusão é muito divertida e eu a pratico sempre que possível.

*O que você faz hoje, em música, que não faria anteriormente com o sistema analógico?

Felipe – O Axial só existe por conta da edição digital. O DJ Craca só existe por conta dos protocolos digitais de controle. Eu ainda escrevo em pentagramas e faço arranjos para quartetos de cordas. Mas mesmo isso, prefiro fazê-lo com o suporte do MIDI que é um sistema digital. Por sinal é a primeira rede de computadores comercialmente lançada (década de 80) para finalidade exclusivamente musical mas até hoje funciona e é cada vez mais usada. Por que? Porque foi criada com a mentalidade open source que nasceu em função da tecnologia digital.

*Você acha que com a música espectral de Gérard Grisey (1946-1998), Tristan Murail (1947), Kaija Saariaho (1952) a tecnologia acrescentou radicalmente algo na música? Eles já faziam essa música sem tecnologia digital. O q você pensa a respeito?

Felipe – Eu penso que eles não foram os primeiros a fazer musica digital. Os primeiros foram a variante extinta do Ser Humano, os Neanderthais que a pelo menos 40.000 anos atrás já tocavam musicas diatônicas em suas flautas de osso perfurado. O princípio de digitação do uso de uma flauta, isto é, furinhos abertos ou fechados, é o mesmo princípio que faz funcionar a internet de hoje. Eu vejo a música como uma expressão essencialmente digital desde sua remota origem.  O episódio da música espectral ou mesmo da música serial, ambas anteriores ao moderno conceito de tecnologia digital, só confirmam essa tese. Na verdade eu acho  que foi a música quem ensinou as demais tecnologias a migrarem para o meio digital. E, dentro desse ponto de vista, não é absurdo pensar que cada vez mais estamos vivendo numa sociedade musicalmente interconectada.

*Poderia dar uma idéia de como é basicamente o seu processo composicional?

Felipe- Ultimamente tem sido sentado na frente do computador, trabalhando comsoftware modulares. O meu preferido tem sido mesmo o Ableton Live. Eu tenho um banco de sons e ruídos que eu venho gerando a mais de 10 anos e sempre recorro a ele como argila inicial. Depois, realizo muitos processamentos até modelar esse som à minha necessidade. Também, tenho cada vez mais, gerado sons a partir de instrumentos sonoros que eu crio. São híbridos analógico x digitais ou totalmente digitais. Um dos mais interessantes é uma tábua de madeira com 2 captadores piezoligados à uma interface digitalizadora . A partir daí muitos processos espectrais e temporais são aplicados. E por ai vai.

*Criar digitalmente transformou as motivações dos compositores?

Felipe – Certamente sim, transformou as motivações de uma boa parte dos compositores. Mas, mais importante do que isso, permitiu o acesso de muitos ao ato da composição.

*Como você se relaciona com o seu espaço de trabalho? Como é formado o seu set para trabalhar?

Felipe – Eu tenho um pequeno estúdio. É um caos. Milhares de cabos conectando tudo. Como trato de facilitar minha vida em algum aspecto, tenho utilizado o mesmoset que uso para performances ao vivo como set de composição. Claro que em estágios mais avançados como mixagem, edição, etc, acabo sentando numa outra mesa com um pouco mais de conforto. Mas, basicamente estou tentando aproximar a ergonomia da performance da ergonomia da composição. Não tenho obtido sucesso ainda.

*Como é formado o seu homestudio?

Felipe – Tenho várias caixas de som. Algumas boas e algumas baratas. Substitui a mesa de som por duas placas digitais de 8 canais cada. Praticamente não tenho periféricos externos. Os que tenho estão no armário. Tenho usado tudo dentro do computador exceto um ou outro preamplificador à válvula. E tenho um set de microfones razoáveis. Os cabos sou eu mesmo quem soldo pois é muuuito mais barato e funciona melhor. E, apesar de simples, o estúdio tem um certo projeto acústico que fez ele ficar ao mesmo tempo agradável de ouvir e de estar.

*Quando faz shows leva o seu set de casa? Ele é composto por vários laptops ou outras aparelhagens diferentes?

Felipe – Laptops, controladores miditablets, microfones, baixo elétrico, kaospad,kaossilator, tábua com captadores piezo, pedaleira midi. Trato há 10 anos de reduzir essa bagunça. Tenho evoluído lentamente. No passado o Axial fazia shows com 2 carros. Hoje em dia cabe tudo em 4 cases dentro de um porta-malas. Pra mim, isso é uma vitoria!

*Você finaliza o seu trabalho em estúdios maiores?

Felipe – O último trabalho eu finalizei no meu mesmo.

*Você compõe nos aeroportos, praças e salas de espera? Você adota a idéia laptopia?

Felipe – Totalmente. Se eu não fizer isso não consigo mais compor. O laptop foi um salto de liberdade para mim. Demorei a poder comprar um. Mas quando aconteceu, realmente passei a ser um compositor nômade.

* A disseminação instantânea da música via internet reduz distâncias entre o músico e seu público?

Felipe – Sem dúvida. Foi a grande revolução do bypass no intermediário.

*Os fluxos de música sem suporte físico fazem produtores e consumidores dependerem menos da indústria?

Felipe – Lamentavelmente não. Pois, apesar de que a diluição do suporte permitir a liberdade com relação à indústria, as pessoas mais velhas estão viciadas nessa relação escrava. Gostam de falar que o vinil é melhor blá blá blá. E, pior do que isso, as gerações mais novas estão tão estupidamente ansiosas por sucesso midiático que sucumbem a reproduzir o discurso que a velha industria – que deveria estar moribunda – lhes embute na cabeça por meio de campanhas publicitárias, terrivelmente, eficientes. Quem tem criança em casa sabe do que estou falando. A TV a cabo, por exemplo, tem uma eficiência em gerar ansiedade consumista nas crianças que é fora do comum. O imediatismo é a chave do negócio. Os torrents,  os P2P estão ai. Mas é mais fácil comprar no ITunes.  Aliás, há centenas de lojas de música virtuais por ai. Mas todo mundo vai pro Itunes. Os formatos livres como OGG também estão aí. Mas é mais fácil usar um proprietário como mp3 wav aif. Os sistemas operacionais livres como UBUNTO STUDIO estão aí (e são muito melhores). Mas todo mundo acha que é melhor usar o OS da Apple. Pensemos: não é absurdo que com a infinidade de possibilidades que a internet nos traz TODO MUNDO utilize apenas o Google para buscar,  o Facebook para conversar o Youtubepara assistir?  Pra mim, essa monocultura é sinal de problemas sérios!

*Como você vê a facilitação e agilização da aquisição, divulgação e distribuição de repertórios musicais via internet?

Felipe – Vejo que já foi melhor. Voltou a um ponto que eu vou chamar aqui de ‘bunda mole’. Tivemos um momento maravilhoso produzido por um site horrível chamado MySpace. Foi realmente fantástico. Por pior que o seu som fosse, por mais mal gosto que você tivesse, haveria pelo menos mais 5000 pessoas no mundo que iam adorar o que você fazia. Isso é lindo!  Lamentavelmente, os caras foram muito incompetentes e estavam mexendo com gente muito graúda da industria do entretenimento. Resultado? Bem vindo ao Facebook. Agora, como faz para que outros te ouçam? Importune eles! Eu recebo diariamente pelo menos um pedido de algum semi-desconhecido pedindo que eu ouça sua última produção ou curta seu último vídeo. Porque isso? Porque a alternativa a isto é pagar R$5000 por uma assessoria de imprensa para fazer, hoje, em pleno século XXI o mesmo que se fazia no século passado.

*Como você vê a ‘ciber-pirataria’ e a distribuição comercial ilegal?

Felipe – Não uso o termo ciber-pirataria. O termo distribuição comercial ilegal soa tráfico de drogas. Não é isso o que faço ou defendo. Defendo sim o livre acesso de qualquer um a qualquer bem cultural ou saber científico. Ponto.  Sou contra que um cara venda música num CD sem repassar algo aos demais participantes dessa obra. Mas não sou contra que esse cara ou qualquer outro tenham acesso gratuito a essa obra e a compartilhem gratuitamente. Coibir esse acesso é, para mim, um crime grave. Mas para quem acha que estou muito cabeça digo assim: a obra do Axial é para ser pirateada pois assim economizo dinheiro e petróleo  deixando de fazer copias.

*O que você pensa sobre a transformação da noção autoral a partir da licença Creative Commons? E a quebra de patentes?

Felipe – Sou fã do Creative Commons. Sou fã do Lessig. Sou fã do CTS-FGV. Acho que o Creative Commons é uma solução fantástica e imediata para toda essa briga em torno de pirataria, monetização, etc. Lamentavelmente, as distribuidoras digitais e as grandes empresas de entretenimento estão escaneando todo o conteúdo da rede e utilizando esse sistema hipócrita chamado Notice and Takedown para assustar as pessoas que usam conteúdo de forma, absolutamente, lícita na rede. Só pra ter uma idéia do que estou falando, eu não só tenho uma coleção de emails de usuários que utilizaram minhas músicas de forma, absolutamente, legítima, por meio do Creative Commons e, tiveram seus vídeos suspensos como eu mesmo tive música minha que estava em conta minha do SoundCloud e do Youtube retiradas de circulação, por conta dessa estupidez que é o direito à lucratividade de uma empresa passar por cima do direito de toda humanidade em acessar conteúdo cultural. Na verdade, eles estão cometendo um delito grave.Todo o conteúdo do Axial é licenciado em Creative Commons e eu mesmo faço mini-cursos sobre o assunto para meus alunos na faculdade (que acham a idéia genial) e já fiz isso também com professores.

*Como você vê a questão autoral na prática da apropriação de repertórios pelos DJs?

Felipe – Eu vejo da melhor forma possível. Mas nem todo mundo vê assim. Eu acho que o DJ é uma peça fantástica desse nosso mundo pós moderno. E tem alguns DJs que eu admiro tremendamente. Essa apropriação de obras de terceiros eu vejo como um direito legítimo que deveria ser defendido com unhas e dentes pela sociedade. Se o Brasil foi o pais da antropofagia modernista, é um absurdo que se impeça que os DJs, antropófagos por natureza, devorem tudo que têm a sua volta. É imoral impedí-los de regurgitar tudo isso à sua maneira. E é triste não entender que esse refluxo criativo é justamente uma tremenda reflexão crítica em torno das coisas do nosso cotidiano. Juridicamente falando, se um cronista pode apropriar-se de dados do cotidiano para gerar reflexão, então. o trabalho de um DJ eu considero fair use.

* Os computadores e seus mecanismos de busca na internet ampliam as possibilidades de encontros e afinidades estéticas?

Felipe – Sim, certamente.

*Como você vê os problemas da ‘suposta’ democratização da criatividade?

Felipe – Não acho nada “suposta”. Acho real. E não acho que seja problema. Acho que é utopia! O dia em que a criatividade estiver de fato democratizada, talvez tenhamos menos gente deslocada nesse mundo fazendo mal a outras gentes. Como artista que sou, não tenho medo nenhum de ver meu cargo ser banalizado pela presença massiva de artistas banais. Viva isso! Quanto mais dificilmente pudermos separar um artista de um cidadão e um cidadão de um artista, melhor estaremos. Nesse sentido, respeito e admiro demais movimentos artísticos protagonizados por cidadãos com o BaixoCentro aqui de São Paulo. Ou deveria dizer movimentos de cidadania protagonizados por artistas?

*Como você relaciona a ‘ciber- pirataria’? Se você encontrasse um Cd seu sendo vendido por camelôs. Como você veria isso?

Felipe – Vamos separar as coisas, ciber pirataria não é o mesmo que um cara vendendo um CD ilegal em uma barraquinha. Eu acho que venda de CD pirata é o mesmo que produto falsificado. Eu não gosto pois não compartilha o lucro com todos os envolvidos. Mas vou dizer uma coisa, se eu visse um CD pirata do Axial num camelô, eu certamente fotografaria com o Instagram e publicaria no Facebook cheio de orgulho!!! Acho pior a “pirataria” de grandes empresas que estão fazendo exatamente o mesmo, porém, não são camelôs. Com o Axial estamos tendo uns episódios desse tipo. Esses não dá orgulho nenhum publicar a foto.

*Como você vê a questão autoral no processo remix. Tudo bem colagens e recolagens?

Felipe – Tudo bem! Ou fazer uma música a partir de uma escala diatônica já não é uma colagem do Palestrina? Alguém foi processado porque lhe roubaram o acorde de ré maior que havia inventado? Alguém foi processado porque usou um violão quando outro já o havia feito? Se o remix fosse proibido não teríamos o blues nos EUA e não teríamos o Samba no Brasil. O remix é tão antigo quanto a própria música. Música é repetição e méta-repetição. Quem impede essa lógica não gosta de música. Ou gosta de música ou se acha iluminado por uma dádiva divina da criação a partir do nada. Alguém conhece alguma música 100% original? Sem nenhuma relação com o que já fora feito?  Deve ser horrível.

 LINKS DO FELIPE

http://www.facebook.com/felipe.julian.31?fref=ts

http://www.axialvirtual.com/Axial/Axial/Axial_%28home%29.html

http://www.myspace.com/projectaxial

http://www.axial.net.br/Julian

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                                                     Dj Craca (Felipe Julián)

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