Ana Fridman

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Ana Fridman é compositora e pianista, graduada em Música e Dança pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com mestrado em Composição e Performance no California Institute of the Arts e doutorado em Música pela Universidade de São Paulo (ECA/USP). Atuou como diretora musical para espetáculos multimídia, incluindo trilhas para o coreógrafo Ivaldo Bertazzo para os espetáculos: Além Da linha D’água, Mãe Gentil, Folias Guanabaras e Noé, Noé, entre outros.  Em editais de música foi selecionada como compositora no projeto “Rumos de mapeamento de música brasileira” do Itaú Cultural, em 2007, como arranjadora e intérprete, em 2009, no projeto A Chiquinha que não tocou no rádio, patrocinado pela Caixa Cultural  como compositora, arranjadora e intérprete no edital ProAC nº 17 para a gravação de seu 2º trabalho autoral, o disco Notas de um sem tempo. Em 2010, participou como arranjadora e pianista do disco Chiquinha em Revista, produzido por Gilberto Assis, lançado em 2009, pelo selo SESC. Sua pesquisa de doutorado tratou da recontextualização de materiais e procedimentos da música não ocidental na prática da improvisação, incluindo estágio realizado, em janeiro de 2012, na Guildhall School of Music and Drama, instituição na qual também ministrou workshops de improvisação musical durante este mesmo período.

ENTREVISTA (Cd O que há de concreto na canção?)

*Como surgiu a idéia desse projeto Cd O que há de concreto na canção?

Gil: Estava lendo alguns poemas concretos e pensei no desafio que seria musicá-los, uma vez que eles são, na maioria, muito curtos e essencialmente visuais. Os tropicalistas já haviam se aproximado dos poetas paulistas, alguns poemas de Arnaldo Antunes são musicados por ele próprio ou talvez já nasçam como canções, mas não tenho conhecimento de um trabalho que reúna canções compostas a partir de poemas concretos, pós-concretos ou visuais de autores de diferentes partes do Brasil. Achei que seria uma boa idéia e imediatamente pensei no título: “O que há de concreto em São Paulo”. Assim que tomou conhecimento, a Ana Fridman mudou para “O que há de concreto na canção?”.

Ana: Meu pai é artista plástico e esteve um bom tempo envolvido com o movimento concreto, pois é também um movimento que se refere às artes visuais, além da poesia. Tive acesso à várias coleções de poesia concreta que ele tem e o Gil veio me falar dessa ideia de fazer esses poemas virarem canções. Achei um desafio interessante e inédito, olhava aqueles poemas, de poucas palavras, mas com muitos significados e imagens, e começamos a trabalhar a partir dessa idéia inicial.

* Como surgiu a parceria e a escolha dos músicos e intérpretes?

Gil: Já havia desenvolvido um projeto de arranjos de obras menos divulgadas de Chiquinha Gonzaga ao lado de Ana Fridman e dessa parceria nasceu o Cd Chiquinha em Revista, com a participação de Ná Ozzetti, Susana Salles, Vange Milliet, Carlos Careqa e Rita Maria, dos quais, dois participam também do Cd O que há de concreto na canção?. Eu e a Ana temos estilos diferentes de composição, pensamos a música de maneiras diferentes, mas gostamos do que o outro faz e isso gera uma diversidade que só enriquece o trabalho. Antes do início do processo de composição, conversamos muito sobre o conceito e como o projeto seria conduzido.  A ideia geral era fazer uma canção que representasse uma leitura espontânea do poema, uma versão entre tantas possíveis. Inicialmente escolhemos os poemas a partir da leitura de autores de diferentes partes do país e mesmo fora dele, como o português Mello e Castro, o baiano Antonio Risério, o grupo paulista Noigandres e muitos outros. Em um primeiro momento separamos as poesias aparentemente mais “musicáveis” e depois cada um escolhia aquela com a qual mais se identificava para compor a música. Inicialmente as coisas estavam bem divididas entre nós, cada um compunha e arranjava a sua música, mas no decorrer do processo as coisas foram se misturando: eu compunha a parte A e a Ana a parte B, eu compunha a música e a Ana fazia o arranjo etc. A gente já compunha a música pensando no intérprete, tinha que ser o Marcelo Pretto para cantar “Nome” de Arnaldo Antunes e a Ana só conseguia ouvir a voz da Ná cantando “Aves” de Paulo Leminski. O mesmo aconteceu com os outros intérpretes: Carlos Careqa e Zeca Baleiro e Priscilla Frade.

Ana: Aqui posso acrescentar que minha primeira parceria com o Gil foi meu primeiro CD autoral de música instrumental “O tempo, a distância e a contradança”. Ele foi o produtor musical desse disco, mas já sabia que ele era compositor e havia escutado algumas trilhas que ele tinha composto para espetáculos de dança. Também notei estilos diferentes em nossa forma de compor, mas achei que eram bastante complementares: eu trabalho de uma forma mais intuitiva, costumo montar as coisas de uma vez só; o Gil é mais metódico, pensa bastante antes de fazer e sempre me surpreende o resultado do processo dele, contrapontos incríveis, coisas que me fizeram inclusive pensar mais também! O que aconteceu é que fomos fundindo nossos estilos durante os trabalhos que fizemos, mas posso dizer que nesse trabalho “O que há de concreto na canção?” foi também onde mais nos misturamos como criadores. A escolha dos intérpretes foi feita durante as composições, como mencionou o Gil. Também na poesia “Ali”, que foi feita pelo Paulo Leminski para sua esposa Alice Ruiz, uma grande poetisa e amiga da Ná Ozzetti, não poderia imaginar outra pessoa para cantar senão a Ná! Enfim, escolhemos com muita calma e cada canção foi composta mesmo para o intérprete que a cantou no disco.

*Como foi o processo de gravação em Estúdio?

Gil: Escolhemos para as gravações, a sala viva do “Espaço Cachuera” que, por ser bem grande, possibilitaria a captação de todos os instrumentos ao mesmo tempo. Eu queria um tipo de gravação old school com todos os instrumentos gravados ao mesmo tempo, menos as vozes que seriam gravadas separadamente. Convidamos a cantora Priscilla Frade para cantar nos ensaios e fazer a voz guia no estúdio, mas gostamos tanto que ela acabou participando do Cd e também dos shows de lançamento. A gravação “ao vivo” possibilita uma interação maior entre os músicos e resulta em uma sonoridade mais “natural”, que eu acredito estar mais em acordo com o conceito do Cd. A formação instrumental geral foi fixa: Ana Fridman ao Piano, eu no Baixo e violão, Mario Checchetto no clarone e sax, Vitor Lopes na gaita, Caito Marcondes na percussão e  Sergio Reze na bateria e gongos melódicos.

Ana: Essa maneira de gravar todos juntos realmente é a melhor forma do trabalho sair orgânico, sem ter aquela cara de “gravado em estúdio”, mas sim onde cada músico não só toca, mas responde ao estímulo dos outros músicos que estão com ele. Isso faz o show ser bem parecido com o resultado gravado. Houve também essa uniformidade com a formação, quase todas as músicas foram feitas para piano, sax, gaita, baixo, bateria e percussão. Tocamos com esses instrumentistas há bastante tempo, também são parcerias antigas e isso confere ao trabalho uma interação muito importante, um resultado vivo, que respira…

* Como o SESC recebeu o projeto?

Gil: O pessoal do selo Sesc quis ouvir as músicas e felizmente eu já havia pré-produzido muitas delas em uma versão meio acústica-meio MIDI, com a Ana cantando algumas e eu cantando outras. Eles gostaram muito e resolveram investir no projeto.

Ana: Sim, para que o SESC ouvisse, tivemos que elaborar os arranjos, gravar e cantar com tudo, mesmo não sendo cantores, para que o SESC tivesse uma idéia real do projeto. Convencemos não só o SESC, mas também os cantores que convidamos para cantar de verdade aquelas músicas!

*Como têm lidado com a divulgação e distribuição do CD O que há de Concreto na Canção em redes sociais? 

Gil: O selo SESC tem um site dedicado ao seu catálogo, lá você encontra tudo sobre o Cd, incluindo um teaser promocional e lá ser quiser, você também comprá-lo. Acredito que as redes sociais tiveram um impacto grande no show de lançamento, muitas fotos do making of  vinham sendo postadas há algum tempo no facebook e em seguida divulgamos o flyer do show e tivemos uma boa resposta de público nos dois dias

Ana: Divulgamos também o disco nas faculdades onde trabalhamos e muitos alunos vieram ver este trabalho. É muito interessante como as gerações mais novas se interessaram pela sonoridade que criamos.

*As composições trazem uma delicadeza contemporânea. Afinal, o que há de concreto na canção?

Gil: Essa indagação pode se juntar à outras: o que caracteriza a canção produzida atualmente? Quais são os temas centrais? O que pode ser considerado MPB? As temáticas atuais refletem nossa época? Ao ouvir certas canções, às vezes, tenho a impressão de que foram compostas há décadas, pois eu não penso e nem sinto mais as coisas dessa maneira… As canções costumavam espelhar o seu tempo e eu acho que muito embora a poesia concreta tenha nascido há mais de cinquenta anos ela permanece atual e ainda influencia as novas produções, daí nossa opção por musicá-las.

Ana: Acho que sempre há uma maneira nova de dizer as coisas, ou de transformar o que já foi dito em outras imagens, reler, rever. O que há de concreto é que nada fica estático, as coisas vão se transformando com o tempo. Trabalhar com a poesia concreta abriu para mim uma janela nova na maneira de pensar uma canção. Digo isso porque costumo trabalhar mais com músicas instrumentais e trilhas sonoras, mas as letras daqueles poemas abriam cada vez uma nova paisagem para mim. Tentei olhar a canção como imagem e a partir daí e da parceria com as coisas que o Gil criava a idéia de canção foi literalmente se concretizando. O que há de concreto então é que há sempre um novo olhar para o que já aconteceu. Esse novo olhar faz as gerações se encontrarem, os mais novos conhecerem e falarem do movimento da poesia concreta. E tivemos o maior cuidado para mostrar nosso respeito e admiração pelos poetas, criando canções que mostrassem isso também. Um respeito ao tempo que foi para seguir em frente. Isso é a contemporaneidade para mim, e com certeza há uma grande delicadeza nisso.

ENTREVISTA (Junho de 2013)

* Vamos iniciar conversando como os atuais meios tecnológicos sonoros auxiliam ou limitam o seu trabalho nas composições e em suas produções musicais? 

Ana – Acho que a primeira coisa que temos que pensar é o que significa, em uma amplitude maior, a palavra “tecnologia”. Não podemos esquecer que, qualquer material que auxilie um fazer artístico, qualquer extensão do artista, qualquer ferramenta, seja esta artesanal, analógica ou digital, deve ser considerada “tecnologia”. Sendo assim, em música, por exemplo, a notação musical é uma das primeiras “tecnologias” inventadas como suporte para essa arte, assim como os instrumentos musicais. Pensando sob esse parâmetro, todas as formas de tecnologia tem a potencialidade de ampliar ou mesmo de ramificar os fazeres artísticos. Dessa forma, toda vez que aparecem novas tecnologias, aparecem também novas formas de se relacionar com a arte, abrem-se caminhos, aumentam as escolhas. No meu trabalho, pensando nesse sentido amplo, as tecnologias então auxiliam qualquer processo criativo, em seus diversos âmbitos.

* A presença da tecnologia na música sinalizaria a decadência ou a evolução na cultura musical?

Ana – Para começar, não consigo pensar na arte, ou mesmo na música, como algo linear. Em diversos momentos da história, há retomadas estilísticas e estéticas em recontextos e releituras diversas. Há sim momentos em que algo foi considerado “ultrapassado” em arte, mas hoje vejo tudo o que acontece – também por conta das novas tecnologias – como um grande rizoma. Talvez seja um pensamento romântico ou utópico de minha parte, mas acredito que em arte você deva usar tudo o que existe ou que já existiu para dizer o que precisa dizer (e, se não houver esse material, você tem que inventá-lo, como já disse uma vez Stravinsky, láááááá no século passado!). Outro dia estava revendo a trilogia do “Senhor dos Anéis” e ouvindo aquelas orquestrações gigantescas com coros permeados por harmonias tonais/modais. Pensei ali como aquela música influenciava a ação, influenciava nosso olhar e se encaixava perfeitamente naquele contexto épico. E era um contexto visual de grandes efeitos especiais, com tecnologia de ponta. Ou seja, uma combinação entre a música orquestral e as imagens geradas a partir da mais alta tecnologia, uma entre as milhares de combinações que podem acontecer na arte. A presença da tecnologia então aponta mais um caminho. Não é para frente, nem para trás. É mais uma forma sob a qual o artista pode se valer como auxílio para sua expressão. Sobre a evolução ou involução da cultura musical…essa se transforma, renova, desaparece, renasce…tão rápido quanto as tecnologias! Estão juntas? Não sei!!!!

* Como fica a questão da sobrevivência relacionada com a sua função criativa? A tecnologia auxilia nesse sentido?

 Ana – A tecnologia foi aparecendo como suporte. Com as novas relações estabelecidas por essa ferramenta, na Computer Music, por exemplo, a música já não existe sem a tecnologia, então a tecnologia justamente gerou um novo formato de “sobrevivência” musical. Mas, em um olhar mais abrangente, um artista não sobrevive se não criar, ele morre. Se ele quer se valer ou não da tecnologia, isso tem mais a ver com o caminho que ele escolheu para se expressar, o que não o impede de dialogar com os vários formatos de arte que existem e sobrevivem hoje, com toda sua força artística.

*  O que mudou com a passagem da tecnologia analógica para a digital? Somente a velocidade de trabalhar?

Ana – Pensei num relógio. Havia o formato artesanal de um relógio, aquele lindo monumento solar. Depois o relógio analógico, uma miniatura daquele primeiro modelo, mas a continuação de um processo de tecnologia. Aí o digital, o que diz as horas, o clima, e a previsão do tempo em todo o mundo. O que mudou? Todas as pessoas destes relógios estão olhando e contando o tempo, mas as histórias sobre o tempo se ramificaram, há mais versões sobre a relação do homem com o tempo. Mudou a velocidade e o tempo de contemplar as coisas, mas não o conceito em si. A música tem essa função inclusive de mexer com o tempo e, seja por qual meio for, feita pela manipulação de sons ou por uma orquestra, a música continua mexendo com o tempo. Os meios mudam, os conceitos amplos ficam.

* O que a tecnologia digital trouxe realmente de novo?

Ana – Acho que, entre tantas outras coisas, acessibilidade e relações de corporalidade são coisas importantes de se mencionar aqui. Em um sentido também amplo, pensando na relação do corpo com as diferentes interfaces. As mãos em uma tela de toque sensível comparadas às mãos que tocam um tambor, por exemplo. São corpos em situações diferenciadas, mas duas situações que podem gerar música. A tecnologia então trouxe novas relações com as extensões do corpo humano e a acessibilidade faz com que possamos ver, comparar e pensar sobre.

 *  Como você vê a contribuição da tecnologia digital para a música erudita e para a música popular?

Ana – Não sei bem se é a tecnologia que trouxe ou vai trazer, mas, se tudo der certo, talvez nem exista mais essa diferenciação e tudo seja só música! Há tantas ramificações hoje na música, tantas intersecções, tantos casamentos entre a alta tecnologia e o “alto artesanato”, que só consigo pensar em música, “ela mesma”, como diz a educadora Teca Alencar de Brito. Acho que a tecnologia pode auxiliar nesse tipo de processo, principalmente pela visibilidade de tantas formas de arte, veja, sou uma otimista incorrigível!

 * O que você faz hoje, em música, que não faria anteriormente com o sistema analógico?

 Ana – O que eu faço hoje é conseqüência de tudo o que já fiz antes e de tudo o que vi outros artistas fazendo. O que fui fazendo me ajudou a amadurecer e a criar caminhos outros, não necessariamente ligados à tecnologia, mas dialogo e penso também a partir de processos criativos que estão mais vinculados à tecnologia que os meus. Isso significa interagir como pianista com instrumentistas que tocam a partir de sons manipulados, compor com imagem, entre outras coisas. Como costumo gravar bastante em estúdio, as ferramentas de hoje auxiliam a achar um som mais limpo, traduzir melhor esse som. Seja como for, no meu caso de pianista, não há tecnologia que mascare um piano mal tocado (ok, quase existe, estão chegando lá!).

* Poderia dar uma idéia de como é basicamente o seu processo  composicional?

Ana – Gosto de compor andando, olhando as pessoas, lendo placas, pegando frases no ar. Quando fazia mestrado na CalArts, andava a pé e vi uma placa que dizia “Speed Bumps Ahead” (“Lombadas à frente”) e já imaginei uma peça cheia de buracos, silêncios, arroubos de sons…escrevi no mesmo dia uma peça para piano e percussão corporal para a pianista Vicky Ray, na qual ela tocava e se percutia ao mesmo tempo… Quando meu filho Davi nasceu escrevi uma peça com o nome “Acordavi” (cuja performance está em um dos links aqui), que tratava do paradigma força e delicadeza de uma mulher/mãe. Quando andei no metrô de Londres escrevi “Mind The Gap”, uma peça forte, cheia de gente… O som vem assim para mim, de situações do cotidiano que eu coloco como arte… acho que sou um pouco “Duchamp”.

* Existem diferentes motivações ou outras inspirações presentes em seu ato criativo?

Ana – Sobre o processo criativo, tento deixar sempre a mente aberta (ou a mente quieta e o coração tranquilo do Walter Franco?). Se crio a partir da observação e o mundo segue se mexendo, sempre vou observar alguma coisa nova ou, sem pensar, ser influenciada por um evento, sentimento, assentamento novo. Ou, pensando de novo no tempo, olhando as idades que vem na gente como novas idades, tecendo aquela trama que fala do tempo, da corrida do tempo, do tempo que “gruda na pele” (essa era da bailarina Renée Gumiel). Acho que minha motivação é essencialmente poética.

* Você adota métodos específicos para trabalhar em suas criações musicais?

 Ana – Fico pensando se eu adoto os métodos ou se são eles que me adotam! Tenho esse começo de criação pela poesia que vejo no cotidiano mas ao mesmo tempo, o mundo abstrato e matemático me fascinou desde cedo. Então, desse material bruto do cotidiano acabo fazendo combinações, jogos, manipulações, contas, inversões, até achar que o material foi trabalhado como…ele queria…veja, me misturo com a criação, ela cria vida própria. E continua criando vida quando outros músicos vão tocar o que eu inicialmente pensei. São mais pessoas pisando naquele território, um lugar imaginário que vira uma composição colaborativa. Não sei se é um método, mas é um percurso de criação pelo qual costumo caminhar.

* Quais são as suas afinidades estéticas musicais?

Ana – Não sou eu que escolho aqui também. Escuto e o som me pega, não penso, apenas sei que aquele som mudou alguma coisa em mim. Gostei muito dos impressionistas quando os ouvi adolescente, assim como gostei daquele cantor cubano “Bola de Nieve”, que cantava do fundo d’alma. E um monte de outros sons que não combinam entre si, do passado bailarina, sons que dançam, música do leste europeu, outras músicas tantas, Cage naquela entrevista “About Silence”, a coisa mais bonita do som. Talvez minha afinidade estética maior seja até justamente na relação com o silêncio, no sentido musical dele.

* A opção linguística ou do gênero popular/erudito que o compositor faz para a sua produção criativa, determina a qualidade essencial da invenção?

Ana – A qualidade essencial é isso mesmo: essencial. E como tudo o que é essencial, independe de gênero ou de opção. Está lá ou não está, mas não sou eu quem vai definir o que é essencial ou não (e aí você teria muitas páginas sobre esse assunto… e, mesmo assim, ainda sem resposta!).

* O que você faz hoje pianisticamente, com a tecnologia digital, que não fazia anteriormente com o sistema analógico?

 Ana – Na relação específica com o instrumento, pouca coisa mudou. Na interação com outros tipos de sons, gerados por diferentes tipos de tecnologias (voltando ao sentido amplo da palavra), abrem-se outras possibilidades. Certa vez, em um congresso, vi uma performance na qual os instrumentistas tocavam por Skype ao vivo, de várias partes do mundo. Também me lembrei de uma trilha ao vivo que fiz para cinema mudo usando um tipo de processamento de voz aliada ao piano. São olhares diferentes, mas o piano em si está lá, como aquele relógio solar. Sabe, pensei que prefiro mesmo pensar na amplitude da palavra tecnologia, sendo que cada gradação tecnológica gera estímulos diferentes. Assim paramos de pensar em “evolução” e pensamos em possibilidades, o que considero muito mais interessante.

 * Criar digitalmente transformou as motivações dos compositores?

Ana – Tudo o que transforma a maneira de ouvir, gerar e pensar o som deve trazer outros tipos de motivação para um compositor. O compositor é um curioso, um louco por som. Qualquer tecnologia pode transformar inclusive quem ouve, que acaba por estimular de novas maneiras o compositor. É um ciclo grande, ou uma elipse grande, porque volta no mesmo ponto, um pouco mais à frente (ou para trás, quem sabe…uma elipse ultra-dimensional…sem tempo).

* Quais perspectivas novas surgiram no processo criativo a partir da tecnologia digital?

Ana – Acho que as ferramentas mais recentes em relação à arte e à música trazem uma perspectiva de alcance, acessibilidade de todo tipo de trabalho em nível global. Há outras possibilidades em relação à criação propriamente dita, mas acho esta questão da visibilidade bastante importante e passível de discussão hoje.

*Como você se relaciona com o seu espaço de trabalho? Como é formado o seu set para trabalhar?

Ana – Em algum lugar aqui eu mencionei o casamento entre a alta tecnologia e o “alto artesanato”…meu set ideal juntaria o melhor destes dois mundos. Mas meu local de trabalho é um pequeno estúdio, com piano, teclado, computador e acessórios, som, um monte de cacarecos, umas pedrinhas coloridas que eu gosto de olhar e tocar, papéis e uma vista verde da janela, que me ajuda a trabalhar. Tenho um outro set móvel, que utilizo quando ando em um parque perto de casa ou nas ruas por aí, que é um set  minimalista: apenas o corpo e a escuta, de vez em quando voz e um pequeno caderninho pautado para não esquecer um determinado som.

* Quando faz shows leva o seu set de casa? Em suas performances,  no palco, como a tecnologia te ampara?

 Ana- Pianistas gostam muito de pianos acústicos, mas existe a possibilidade de levar um teclado. A tecnologia nesse caso é aquela em busca da melhor sonoridade, aí sou amparada por técnicos de som e um bom equipamento, quando é possível. Quando não é, penso no Hermeto, que diz que um bom pianista toca em qualquer piano. Em um show do meu trabalho que fizemos uma vez, em turnê financiada pela Secretaria de Cultura, me forneceram para tocar um mini tecladinho com três oitavas e sem pedal (também veio sem fonte, depois acharam uma, nem vou dizer que teatro era esse!). Os músicos que estavam comigo perguntaram se ia desistir daquela apresentação, mas eu quis fazer! A apresentação começava com um solo meu e eu não sei como, mas aquele dia de música foi inesquecível, porque tiramos som do que parecia impossível. Essa turnê foi muita bacana, mas essa apresentação em especial foi a mais marcante para todos, e no bom sentido!

 * Em suas aulas,  workshops e cursos, como as tecnologias sonoras te auxiliam?

 Ana – Tenho dado aulas de improvisação musical nos dois extremos tecnológicos. Quando utilizamos o instrumento, também nos valemos de sons processados. No ano passado, em um workshop que dei na USP como parte de minha pesquisa de doutorado, havia instrumentos de orquestra, um saxofone sendo processado “in loco”, vozes, percussão e um Ipad (esqueci o nome do aplicativo que estavam usando, mas os sons eram fantásticos). Em outras situações trabalho bastante com movimento, corpo, voz, tecnologia artesanal! Essas combinações é que me interessam e o som que elas fazem é bom!

 * Você finaliza o seu trabalho em estúdios maiores?

 Ana – Se aqui estivermos falando de processos de finalização de produção musical, como a gravação de um CD ou de uma trilha sonora, o que importa é o “som maior”. Então finalizo meus trabalhos com um bom profissional.

 * Como você vê a mobilidade de poder levar as suas ferramentas de trabalho para onde preciso for?

 Ana – Lembra do meu set minimalista? Levo em todo lugar!

  * Quais equipamentos você costuma usar? Eles são diferentes para criar e para performance? Ou basicamente usa o mesmo set?

 Ana – Meu set para criação não mudou muito, apenas troquei o papel pelo editor de partituras, mas continuo andando por aí em busca de algum som. Na performance, apesar de ser pianista, o que mais gosto é de estar com mais músicos, interagir, criar sons juntos. Então na performance o set vai depender de quem estiver comigo. Já participei, inclusive, de trabalhos de performance multimídia com artes plásticas e dança acontecendo simultaneamente. Este set estará sempre em movimento.

 * A disseminação instantânea da música via internet reduz distâncias entre o músico e seu público?

 Ana – É mais uma porta de entrada para difundir e pensar música. Também é interessante pensar sobre a palavra “distância”, porque, talvez só numa performance presencial músico e público estejam realmente próximos (pensando em contextos mais intimistas de performance, os meus preferidos). Pela internet a “proximidade” ganha um outro tipo de dimensão conotativa, traz perto coisas que estão inalcançáveis, então aproximam da sonoridade, mas não do músico em performance. Mas aproximam de um pensamento musical, de um tipo de criação. Enfim, estou pensando conceitualmente em “aproximação e distância”, mas ficando cada vez mais distante de uma resposta única! Talvez seja mais legal não fechar essa questão.

* Os fluxos de música sem suporte físico fazem produtores e consumidores dependerem menos da indústria?

 Ana – Enquanto lia “sem suporte físico” pensei em uma equação biquadrada. Adorava pensar que cada equação desenhava uma parábola diferente, e ficava colocando variáveis nas equações para saber que desenhos elas formavam… Explicando o paralelo que fiz, acredito que a música é mais do que parece nessa questão, até para os produtores e consumidores. Os produtores devem ajudar a deixar a música – com a “parábola” ou sem ela – ser som e propagar-se como tal. A indústria é negócio, nem sei se está interessada em vender música como som, inclusive. Tentando resumir o que pensei: indústria tem e sempre terá, som também. Tem combinações, gradações geradas pelas novas mídias, mas o princípio fica. O músico sempre vai dar um jeito de existir, o ouvinte não é sempre o “consumidor”, o produtor são vários, mas tem aquele produtor que tem por função lapidar e ajudar a finalizar um processo sonoro. Estou interessada nesse e no ouvinte, que sempre independeram e independerão da indústria.

 * Os computadores e seus mecanismos de busca na internet ampliam as possibilidades de encontros e afinidades estéticas?

 Ana – Ampliam como qualquer outro meio, mas em larga escala, embora com uma certa superficialidade. Os livros, o cinema, as performances, os meios fonográficos, tudo isso amplia essa possibilidade. Conversar com as pessoas, coisa rara nessa correria, também amplia, e aí com profundidade. Para ampliar as possibilidades de encontros e afinidades, seja lá por qual meio for, é – como diz meu filho – só uma questão de respirar! (eu sempre pergunto para ele o que ele fez de bom naquele dia e ele me responde: eu respirei!)

 * Como você vê a questão da divulgação e difusão musical pela web no formato gratuito e no comercial?

 Ana – Existem mesmo estes dois formatos de distribuição de materiais musicais, e também a divulgação comercial, gratuita ou até beneficente (as tais contrapartidas) de idéias e eventos ligados à essa distribuição. Honestamente, são formatos e só, o importante é distribuir, passar adiante esses materiais, fazer com que sejam vistos e ouvidos para serem repensados, transformados ou preservados. Na rede a divulgação assume outros papéis, inclusive, grupos conseguem apoio para gravar seus trabalhos, cria-se lugares de reflexão como este seu, que é música também. Enfim, independente do formato, a música se propaga, todas as músicas foram criadas para isso, são ondas sonoras…

 * Você concorda que a partir da licença Creative Commons cria-se rede de artistas e autores para compartilhar trabalhos pela internet?

 Ana – Concordo sim. É um movimento interessante, porque promove trabalhos colaborativos sem que se perca a autoria. Divulga autores, artistas e compositores e ainda faz com que outros possam interagir com eles na criação. É uma idéia musical, sem dúvida.

 * Em que medida as tecnologias sonoras/digitais te orientam em seu processo criativo, na divulgação e na difusão via internet?

 Ana – Utilizo bastante todo esse aparato, principalmente, na divulgação pelas mídias eletrônicas. Quase todos os meus trabalhos composicionais estão na rede, postei experiências práticas do meu doutorado, cursos, workshops (tudo nos links aqui), tenho um canal no youtube, CDs no Itunes, facebook, myspace, site e outros. Para registros sonoros profissionais, qualquer compositor hoje se vale do aparato de gravação, mixagem e masterização. Para a performance, fluxo constante, tudo pode acontecer ali, estou aberta para interações de todo tipo.

 * Como você vê a questão autoral no processo remix? Colagens e recolagens de músicas?

 Ana – Às vezes a gente acha que uma coisa é novidade, como essa das colagens musicais mas sempre gosto de pensar sob um olhar amplo. Pensando assim, os materiais musicais sempre estiveram aí, seja uma nota, uma simples configuração escalar, um procedimento rítmico como um ostinato, uma condução rítmica, uma canção ou uma criação pronta, uma obra, todos estes são materiais musicais! E materiais são sempre passíveis de transformação. Essa composição, transformação, diálogo, arranjo, remixagem, colagem, é que é a arte. E nunca é estática. Nada se perde, tudo se transforma. Pode ser preservado, pode virar uma outra coisa, pode piorar bem, pode ao contrário: ser um material que ninguém ligava e vem um artista e faz aquilo aparecer. A música sempre se move e a criação move o artista, é um pouco um Big-Bang, um universo em expansão a partir de um grande material chamado “som”.

  LINKS DA ANA

www.anafridman.mus.br

www.myspace.com/anafridman

http://www.youtube.com/watch?v=BUpwJTow_OY

http://www.youtube.com/channel/UCA8itsJuKYQf58u3_cmQiRw

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