Livio Tragtenberg

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Livio Tragtenberg  é compositor, diretor de espetáculos multimídia e produtor musical. Compõe para orquestra, grupos vocais e instrumentais, ópera, cinema, vídeo, teatro, dança e instalações sonoras. Foi coordenador musical da I Jornada Brasileira de Cinema Silencioso na Cinemateca Brasileira, em 2007, com mais de 30 atrações musicais e, desde 1985, apresenta-se como solista no exterior. Foi diretor musical da ópera Luartrovado, a partir de Pierrot Lunaire de A. Schoenberg, com direção de Gerald Thomas no Teatro do SESC Pinheiros, em 2007. Neste mesmo ano, estreou o espetáculo cênico Balada do Deus Morto de Flávio de Carvalho nas Oficinas Culturais Oswald de Andrade em comemoração dos vinte anos das Oficinas da primeira encenação do Bailado e lançou o CD NEUROPOLIS pelo Selo SESC, no Teatro do SESC Pinheiros, em São Paulo.  Co-dirigiu a Orquestra Mediterrânea com mais de quinze músicos convidados de países do Mediterrânea como França, Turquia, Líbano e, em 2005, criou a Nervous City Orchestra em Miami, EUA, reunindo mais de quinze músicos latinos em apresentações no Byron Carlyle Theater. Participou do Festival de Cultura Eletrônica 4HYPE com o espetáculo ReinCorporação Musical unindo música eletrônica com a centenária Corporação Musical Operária da Lapa, em 2005 no SESC Pompéia. Recebeu recentemente prêmio de melhor trilha sonora no Festival de Cinema Brasileiro de Brasília, por 500 Almas, de Joel Pizzini. Em 2004,criou o espetáculo NEUROPOLIS com a Orquestra de Músicos das Ruas de São Paulo e, desde 1995, compõe para o coreógrafo alemão Johann Kresnik espetáculos de dança-teatro na Alemanha, em teatros de Berlim, Hamburgo, Colônia, Dresden, Bonn, Hannover e Essen.

* Vamos iniciar conversando como os atuais meios tecnológicos sonoros auxiliam ou limitam o trabalho nas composições e nas produções musicais?

Tragtenberg – Sem dúvida, as tecnologias auxiliam na velocidade com que se obtem resultados na manipulação sonora. O que está acontecendo é que as pessoas estão dedicando praticamente todo o seu tempo para fazer música e muito pouco para ouvir e conhecer músicas. Essa falta de repertório e referências tornam o pessoal uma presa fácil das opções prestadas pelos software e equipamentos. Nada substitui o estudo, o conhecimento no mínimo.

 * A presença da tecnologia na música sinalizaria a decadência ou a evolução na cultura musical?

Tragtenberg – Já dizia Satie, eu acho: “sempre que me falam em decadência desconfio”. Em si, não é a tecnologia quem determina esses processos. O que determina é a mediocridade humana em seus ciclos de exuberância e raquitismo. São os ‘pontos luminosos’ a que se referia Ezra Pound, que nos fazem tornar a existência nesse planeta menos penosa e um pouco mais prazeirosa. A cultura não evolui linearmente, ela sofre ataques, ela se altera por saltos. Demonizar a tecnologia é ‘papo’ de inquisitor. Assim como mistificá-la é ‘papo’ vazio de quem não tem nada a dizer. Será mesmo que a cultura musical evolui? Uma sonata de Scarlatti é mais desenvolvida musicalmente que o Canto do Adolescente de Stockhausen? Ou uma peça musical do Teatro Nô japonês? Aceitar o conceito de evolução implica estabelecer um centro, um ponto de referência que irá determinar esse tipo de avaliação. Coisa de metrópole e colônia.

* Como fica a questão da sobrevivência relacionada com a sua função criativa? A tecnologia auxilia nesse sentido?

Tragtenberg – Felizmente procurei esses anos todos me libertar das minhas ‘motivações particulares de compositor’. Não estou nem um pouco interessado nas minhas idéias, as dos outros é que me interessam, assim sou uma espécie de ser reagente por excelência. Sempre trabalhei em parcerias, desde o início, nunca achei graça na ‘solidão do criador’. Como não tive formação, mas informação, fui naturalmente compreendendo que o meu trabalho deveria ser encarado como os demais, observadas as suas particularidades. Não ganho dinheiro com o meu trabalho de compositor, eu ‘invento’ dinheiro com ele. Ninguém precisa da minha música, ela faz parte de uma demanda espiritual do ser humano, depois de contemplados os instintos básicos. Dessa forma, no meu trabalho de compositor, em grande medida composto por encomendas de outros, a questão criativa flui naturalmente, seja numa trilha sonora para um vídeo educativo como num trabalho de pura especulação. Não faço distinções quanto à quantidade de ‘criatividade’ que envolve cada projeto. Sempre insisti na época em que dei aulas de música, para que os alunos de composição deixassem a universidade e caíssem na vida. Caso contrário, virariam ‘flor de estufa’, sem sobrevida no mundo real. O que me desagrada nessa ilha de fantasia que se transformou a ‘composição musical universitária’ com os seus jargões tecnicistas e vazios é que a criação musical contemporânea deve dialogar com a sociedade. A cultura deve encontrar seu espaço na arena social para que possa ampliar a sensibilidade e oferecer outras alternativas à indústria do entretenimento e não se converta apenas numa fábrica de títulos e teses. Não sou contra a pesquisa, isso seria loucura! Mas contra um pseudo-cientificismo que beira ao ridículo nas áreas de artes na universidade no Brasil, EUA e Europa. Nos institutos de pesquisa sonora, não existem estúdios mas ‘laboratórios’. Os compositores manipulam suas amostras sonoras com luva cirúrgica para evitar contaminação. É justamente a contaminação que irá fazer avançar as cabeças e quebrar com o circulo viciado da academia.

Em outra entrevista online concedida ao jornal Estadão, Tragtenberg declara a respeito:

(….) “Eu uso para caramba a tecnologia. A tecnologia me ajudou a comprar um apartamento. Se não fosse o computador, eu estaria até hoje malhando com música. Economicamente, a tecnologia é importante para burro, não só criativamente.” (www.estadão.com.br/vidadigital – 14/02/2005)

*  O que mudou com a passagem da tecnologia analógica para a digital? Somente a velocidade de trabalhar?

Tragtenberg – A passagem do analógico para o digital não foi apenas quantitativa, o que em si já é importantíssimo, mas qualitativa. Ganhamos um novo chão para as “tarefas” como gravação, captação, edição, mixagem e reprodução. Esse novo chão possibilitou novos procedimentos e situações que já se encontram bastante discutidas e analisadas nos dias de hoje. Quero enfatizar, em termos da poética da composição, o que essa passagem alterou. Na perspectiva digital o compositor pôde apropriar-se do som como fenômeno de forma mais ampla e profunda. Assim, também tornou-se mais independente do intérprete e de outros colaboradores na execução de idéias próprias. Isso tem um lado bom e ruim também. Na minha música, já vinha trabalhando com a idéia de sobreposição de camadas sonoras no processo de gravação analógico. Dessa forma, o digital possibilitou que se ampliasse com uma lupa as possibilidades de sobreposição e manipulação. Como notou Morton Feldman (1926-1987), percebo limitações de textura, profundidade e plasticidade no som eletrônico. Portanto, antes de mais nada, o digital me possibilitou mergulhar nas possibilidades materiais do som acústico que sempre me pareceu mais interessante.

* O que a tecnologia digital trouxe realmente de novo?

Tragtenberg – Inúmeras descobertas fenomenológicas do som. Sobretudo, o estabelecimento de uma nova plataforma no processo de composição: com o uso de software e hardware. Poder contar com todo um aparato de apoio me libertou para novos vôos de linguagem. A tecnologia digital contribuiu criando esse novo ambiente criativo.

 *  Como você vê a contribuição da tecnologia digital para a música erudita e para a música popular?

Tragtenberg – Pergunta complexa e ainda cedo para respostas muito seguras. Antes de mais nada, percebo que “industrializou” o processo de criação musical. Ao criar padrões através da linguagem dos software de programação, edição e mixagem, estabeleceu-se parâmetros para uma massificação da criacão musical. Nisso o protocolo MIDI contribuiu muito. Em termos de linguagem musical propriamente dita, enfatizou a repetição na forma musical que já vinha se prenunciando na estética minimalista norte-americana (reflexo também da sociedade eletrônica nascente), estabelecendo a estética do cut and paste. Na música de pesquisa alavancou as mais diferentes linhas de pesquisa. Na música popular propiciou novos procedimentos com o uso do sampler e do seqüenciador, surgindo novos estilos musicais baseados nessas possibilidades com o Rap e a Música Eletrônica de pista.

* Existe algum problema no uso da mesma nomenclatura “Música Eletrônica” para os diferentes gêneros populares e eruditos?

Tragtenberg – Ver nisso algum problema é coisa de latifundiário que quer proteger a sua área de interesse. Uma discussão fútil e inútil.

* O que você faz hoje, em música, que não faria anteriormente com o sistema analógico?

Tragtenberg– O mais importante é que tenho autonômia no meu processo criativo, produtivo e reprodutivo.

* Você acha que com a música espectral de Gérard Grisey (1946-1998), Tristan Murail (1947), Kaija Saariaho (1952) a tecnologia acrescentou radicalmente algo na música? Eles já faziam essa música sem tecnologia digital. O q você pensa a respeito?

Tragtenberg- Na verdade a tecnologia digital reproduz conceitos, fórmulas e padrões da composição musical da tradição reunidos ao longo de séculos. Acredito que Charles Ives (1874-1954), por exemplo, entre outros pioneiros do século XX já trabalhavam com questões de espacialidade sonora que se desenvolveram mais tarde, sob o “domínio” da nova tecnologia. Sua poética já era da sobreposição, acumulação, etc. Você pode compor a partir de uma tecnologia digital mas com uma poética musical romântica ou clássica. Não basta a música se apropriar dos recursos e ferramentas técnicas. É preciso também uma nova mentalidade, uma nova poética, um novo approach do trabalho musical e isso não se resume a questões técnicas mas também as novas questões filosóficas, estéticas, sociológicas e políticas.

* Poderia dar uma idéia de como é basicamente o seu processo  composicional?

Tragtenberg – O meu processo composicional parte de um estímulo exterior à música, seja ele literário, poético, visual ou imagético. Por isso, naturalmente, fui me encaminhando para a música de cinema, vídeo, teatro e dança. A partir de uma idéia, estímulo ou encomenda, procuro juntar materiais, colocando-os lado a lado, antes de uma seleção ou mesmo um encaminhamento para colocação no tempo musical. Deixo-os fermentando, criando conflitos, colisões, diálogos e estabelecendo relações ‘alquímicas’ para então começar a coordenar essas relações.

* Existem diferentes motivações ou outras inspirações presentes em seu ato criativo?

Tragtenberg – Como não gosto da academia e de ‘panelinhas’, um movimento constante que pode ser chamado de ‘inspirador’ no meu trabalho é o de ampliar e não me prender aos padrões estabelecidos nos mais diferentes níveis. Assim quando criei a Orquestra de Músicos das Ruas de São Paulo (2004) tratei o material humano e musical de forma integrada. Brinco que não toco músicas mas músicos. Ou seja, o que me interessa é a música deles e os diálogos que posso estabelecer no sentido de criar uma outra configuração junto a esse repertório de músicas populares e tradicionais. De forma, a trazer à tona essa diversidade que reflete a própria diversidade da cidade de São Paulo. São procedimentos de composição bastante simples. Aliás, a simplicidade é importante no sentido de dar uma leitura, criar uma imagem sonora, uma vez que esse material musical faz parte do imaginário das pessoas em geral. Assim sobrepondo três ou quatro idéias musicais bastante simples, pode-se obter uma textura polifônica e interessante em vários sentidos. Por exemplo, quando sobreponho a batida tradicional de berimbau com uma levada típica de guarânia numa harpa paraguaia com um solo de shamisen (instrumento tradicional chinês, muito utilizado na musica japonesa tradicional e clássica), estou criando não apenas um contraponto a três vozes mas um contraponto de universos musicais e sonoros. Assim também com a Blind Sound Orchestra onde me ocorreu a idéia de sonorizar filmes antigos mudos com músicos cegos. Essa incompletude de sentidos me interessa. O espectador/ouvinte vai completar essa ligação. Assim, um pouco voyeur, ele acompanha com uma certa perversão o desenvolvimento e as situações nesse espetáculo.  Os músicos não tem idéia do filme – conto apenas de forma sintética de que se trata de um filme disso ou daquilo  e através de um ponto eletrônico vou fornecendo instruções muito simples do que e como eles devem tocar. Uma espécie de partitura falada em tempo real. O tal do ‘tempo real’ que se tornou uma espécie de totem no dialeto da música eletroacústica dentro da academia.

* Você adota métodos específicos para trabalhar em suas criações musicais?

Tragtenberg – A idéia é justamente desconstruir os métodos, os chamados “automatismos”. Portanto, busco para cada situação um envolvimento do material que seja apropriado e inventado para aqueles dados que me são colocados. Procuro sempre ‘zerar’ o jogo em relação ao metiér já adquirido. Meio assim como um cego que tateia um novo caminho.

* Quais são as suas afinidades estéticas musicais?

Tragtenberg – São inúmeras apesar de ouvir muito pouca música e mesmo me interessar pouco por ela. Na verdade, outras áreas sempre me atraíram muito mais do que a música. A literatura, por exemplo. No entanto, sinto grande afinidade com aqueles criadores que buscaram um caminho próprio que arriscaram como a grande tradição experimental norte-americana de Charles Ives (1874- 1954), Harry Partch (1901-1974), Henry Cowell (1897-1965), John Cage (1912-1992), entre outros tantos. Mas também Walter Smetak (1913-1984), Gilberto Mendes (1922) na música brasileira; assim como o rock progressivo que foi realmente a música dos meus anos de ‘formação’ e a música brasileira no geral.

* A opçãolingüistica ou do gênero popular/erudito que o compositor faz para a sua produção criativa, determina a qualidade essencial da invenção?

Tragtenberg – O que é a ‘qualidade essencial da invenção’? Diria Augusto de Campos: é o risco. Nunca vesti ou aceitei as diferenciações de gênero e estilo, para mim nunca funcionaram. Portanto, procuro investir sempre a maior quantidade de risco possível em cada criação sonora que me lanço.

* Graças à possibilidade de digitalização do som, como é pensada e gerada a música construída a partir das tecnologias digitais?

Tragtenberg – Esse recurso possibilita que esmiucemos o material sonoro quase à sua unidade mínima. Dessa forma microscópica podem se apresentar situações sonoras inusitadas antes dessa tecnologia. Outra coisa é a criação de sons digitais a partir da programação no computador, através de várias linguagens e protocolos como o C-Sound  que me interessam menos. Uma vez que compartilho da mesma desconfiança que o compositor americano Morton Feldman (1926-1987) (precursor em ‘música aleatória’) tinha com relação aos sons puramente eletrônicos (para ele eram muito ‘chapados’ com pouca profundidade, entre outras coisas). Não há dúvida, que a tecnologia digital mudou o modus operandi do compositor que passou a pensar de forma ainda mais fragmentaria, isolando os seus elementos; bem como procedimentos como justaposição se tornaram muito mais comuns do que antes, sem essa tecnologia. As poéticas que esses recursos propiciaram se direcionam para um certo hedonismo e mesmo – por que não?  Um diletantismo, uma vez que o campo de possibilidades está tão acessível e com resultados tão mais fáceis de serem obtidos. De certa forma, o software ou a base de programação  ‘compõem’ elas próprias boa parte da chamada ‘composição’. Não faço qualquer julgamento de valor ou moral com relação a isso porque a figura do compositor vista pelo crivo da autoria, originalidade, genialidade, idiossincrasia, particularidade me parece ultrapassada, velha e sem interesse.

* Geralmente, como você inicia uma idéia criativa? Pensando conjuntamente com a tecnologia? Como se dá o seu processo criativo inicial?

Tragtenberg – A tecnologia fornece ferramentas e anti-ferramentas no processo de criação. Encaro a tecnologia como um processo, também, de risco. Busco levar as ferramentas ao limite e sempre que possível, ultrapassá-los para ver no que vai dar. Não utilizo a tecnologia apenas de forma passiva, instrumental. Busco nela uma parceira criativa e ambos nos surpreendemos com as novas situações a que chegamos. A princípio nunca penso nas ferramentas que serão usadas. Penso de forma, ainda, abstrata tateando uma forma de abordagem sonora para uma idéia já pré-existente, quando se trata de um estímulo não sonoro. Por exemplo, num determinado momento estava pensando na música Tecno que utiliza um compasso binário simples na sua batida, da mesma forma que as Marchinhas de Coreto do começo do século XX. Dessa forma, veio- me uma idéia meio obvia: por que não juntá-los? Dois universos culturais totalmente distintos seja musicalmente como na sua inserção social.  Essa colisão me interessou. Nesse sentido, fui atrás da Corporação Musical Operária da Lapa com mais de cento e trinta anos de existência e propus a eles essa idéia. Criei algumas batidas bem básicas no computador em cima da Tecno, do compasso binário e pedi a eles que me mostrassem o seu repertório. Selecionei algumas marchas, dobrados e nos apresentamos para o Festival 4HYPE de música eletrônica no SESC Pompéia, em 2005, no ninho da tribo clubber. Foi uma experiência única ouvir aquelas melodias conversando com a música eletrônica. Interessante é que foi o público de gueto, da tribo clubber quem torceu o nariz, os velhinhos da Corporação adoraram a experiência.

* Criar digitalmente transformou as motivações dos compositores?

Tragtenberg – Não necessariamente. Existem os compositores que vestem o fardão da tradição européia erudita, cujas motivações independem da tecnologia usada: resumem-se à expressão de seu ego, sua diferença e perseguem o velho ideal romântico do artista burguês. Já outros compositores entendem que esse figurino está ultrapassado na sociedade atual e que a função da música e do músico extrapola esse jogo “virtuosístico” do artista. Buscam estabelecer um novo circuito de circulação e criação da música, apropriando-se de estratégias em mídias digitais que redefinem a autoria como propriedade. Mas também buscam novas relações entre criação sonora e as pessoas, abandonando a relação ativo-passivo entre artista e público.

* Quais perspectivas novas surgiram no processo criativo a partir da tecnologia digital?

Tragtenberg – A perspectiva da conversa, do diálogo, da parceria, da contaminação e principalmente da diluição e do apagamento.

*Como você se relaciona com o seu espaço de trabalho? Como é formado o seu set para trabalhar?

Tragtenberg – Dependendo do trabalho, uso o estúdio de gravação como mais um instrumento, assim como o mixer. Para cada projeto faço um desenho diferente de produção. Quando trabalho com cinema, tenho que finalizar num estúdio específico para isso. Mas cada vez mais, finalizo no meu homestudio.Tenho dois computadores McIntosh que me oferecem diferentes software com os quais tenho mais familiaridade, mesclando diferentes épocas da tecnologia digital e analógica. Não costumo compor em aeroportos, praças e salas de espera. Primeiramente, componho mentalmente e para isso dedico noventa por cento do tempo no meu processo criativo. Prefiro observar o que acontece em volta quando estou em trânsito. Porém, desde os anos 90, uso o que chamava de “estúdio de hotel”. Com o tempo o equipamento foi se miniaturizando, o que é ótimo, porque também se reduz cada vez mais o peso permitido em vôos. A mobilidade é uma grande aliada no aspecto de produção musical; no lado criativo, ela permite responder imediatamente a um impulso, à uma idéia repentina. Inclusive, mantenho um set móvel e outro fixo. Quando faço shows ou apresentações levo um laptop e periféricos de processamento de captações especiais.

* Como é formado o seu homestudio?

 Tragtenberg – Tenho dois computadores que me oferecem diferentes software com os quais tenho mais familiaridade, mesclando diferentes épocas da tecnologia digital e analógica.

* Você divide ainda o estudio, o seu ambiente de trabalho com outros profissionais?

Tragtenberg – No momento não.

* Quando faz shows leva o seu set de casa? Ele é composto por vários laptops ou outras aparelhagens diferentes?

Tragtenberg – Não, tenho um set móvel e outro fixo. Levo um laptop e periféricos de processamento e captações especiais.

* Você finaliza o seu trabalho em estúdios maiores?

 Tragtenberg – Dependendo do trabalho uso o estudio de gravação como mais um instrumento, assim como o mixer. Para cada projeto faço um desenho diferente de produção. Por exemplo, quando trabalho com cinema, tenho que finalizar num estudio específico para isso. Mas cada vez mais tenho finalizado no meu homestudio.

* Você compõe nos aeroportos, praças e salas de espera? Você adota a idéia laptopia?

Tragtenberg – Não. Componho primeiro mentalmente, a isso dedico 90% do tempo no meu processo criativo. Prefiro observar o que acontece em volta quando estou em trânsito.

* Como você vê a mobilidade de poder levar as suas ferramentas de trabalho para onde preciso for?

Tragtenberg – Desde os anos 90 uso o que chamava de “estudio de hotel”. Com o tempo o equipamento foi se miniaturizando, o que é otimo, porque também se reduz cada vez mais o peso permitido em vôos. A mobilidade é uma grande aliada no aspecto de produção musical; no lado criativo ela permite responder imediatamente a um impulso, à uma idéia repentina.

 * Quais equipamentos você costuma usar? Eles são diferentes para criar e para performance? Ou basicamente usa o mesmo set?

Tragtenberg – Utilizo alguns software de edição e geração sonora, sempre acompanhados de um bom microfone que possa captar as sonoridades que me envolvem. Para o palco busco um equipamento que me ofereça segurança, venho da época em que fazer eletrônica no palco em tempo real, envolvia um plano B, C e D. Uma vez que os equipamentos ainda eram muito instáveis.

* A disseminação instantânea da música via internet reduz distâncias entre o músico e seu público?

Tragtenberg – Estabelece uma nova possibilidade desse contato que é muito interessante. Porém, não tenho muito tempo nem equipe para alimentar a internet com os meus conteúdos, com músicas, vídeos, etc.

* A internet muda as relações entre produtores e consumidores de música?

Tragtenberg – Muda, tanto que os ‘caras’ da indústria da música ainda não conseguiram se encontrar nesse novo ambiente, sinal de que realmente as coisas mudaram. Mas também mudaram mais profundamente, ou seja, novas questões afloraram como a do suporte, da oisificação da gravação musical e da autoria.

* Os fluxos de música sem suporte físico fazem produtores e consumidores dependerem menos da indústria?

Tragtenberg – Sim, criam uma segmentação que é bem vinda.

* Como você vê a facilitação e agilização da aquisição, divulgação e distribuição de repertórios musicais via internet?

Tragtenberg – Com bons olhos e ouvidos, estimulam a curiosidade das pessoas, ao menos em tese, porque o que se vê em geral é a repetição do comportamento massificado transferido das mídias anteriores, controladas pelos mesmos grupos econômicos que detêm os canais de divulgação e produção em grande escala.

* Quais perspectivas novas surgiram no processo de difusão via internet a partir da tecnologia digital?

 Tragtenberg – Ainda são incipientes as mudanças no âmbito da Internet. Em geral, elas reproduzem as formas tradicionais adaptadas aos novos meios. Vai ser difícil escapar da figura do atravessador entre criador e público. Está em processo.

* Como você vê a ‘ciber-pirataria’ e a distribuição comercial ilegal?

Tragtenberg – É uma resposta à ganância da indústria do entretenimento. Não se vive sem ela.

* O que você pensa sobre a transformação da noção autoral a partir da licença Creative Commons?

Tragtenberg – A transformação autoral se deu antes e é muito mais ampla que o Creative Commons, que é coisa de advogado para normatizar e faturar nesse novo ambiente. Essa transformação é mais profunda e precisa ser analisada em sua poética e não apenas em sua face jurídica. As comunidades livres na internet já praticavam a liberdade muito antes desse tipo de licença. Como dizia o Millôr: “para o pensamento livre basta apenas o livre pensar”.

* Como você vê a questão autoral na prática da apropriação de repertórios pelos DJs?

Tragtenberg – Acho que se envolve criação e invenção muito interessante. Bach fez o mesmo com os compositores de sua época assim como todos os demais, o Strawinsky (1882-1971) dizia que ‘roubava’ música dos outros. Precisamos parar de emitir julgamentos morais e éticos que beiram o policialesco. Arte é o universo da liberdade, não é isso?

* Os computadores e seus mecanismos de busca na internet ampliam as possibilidades de encontros e afinidades estéticas?

Tragtenberg – Com certeza.

* Como você vê a questão da divulgação e difusão musical pela web no formato gratuito e no comercial?

 Tragtenberg – A internet é também mais uma ferramenta para a prática comercial , portanto sua vocação natural é vender coisas, música também. O formato gratuito é uma nova opção possível no nosso universo da produção cultural. Aliás, tem uma música que faz parte do repertório da minha Nervous City Orchestra de Miami , EUA, que diz assim: “Nada é de graça, especialmente quando é de graça”.

* Download de arquivos da internet é processo de difusão, consumo de música e comércio eletrônico?

Tragtenberg – Pode ser os três ao mesmo tempo ou um a cada tempo.

* Como você vê os problemas da ‘suposta’ democratização da criatividade?

Tragtenberg – Isso é um problema? Aonde? Para quem?

* Você concorda que a partir da licença Creative Commons cria-se rede de artistas e autores para compartilhar trabalhos pela internet?

Tragtenberg – Não, muito antes deles e esses comportamentos felizmente ultrapassam em muito essa ambição etnocentrista dessa licença: eles querem normatizar, eu quero é desregrar, extrapolar!

* Em que medida as tecnologias sonoras/digitais te orientam em seu processo criativo, na divulgação e na difusão via internet?

Tragtenberg – Na criação estou envolvido com tudo que participe do processo em cem por cento. Na divulgação, a tecnologia tem me ajudado bastante, uma vez que sempre tive muita preguiça em divulgar eu mesmo e minhas atividades (na verdade tenho horror ao cabotinismo). É claro que a tecnologia influi nas minhas idéias. Seria no mínimo loucura dizer o contrario: “não, eu componho como na época de Bach apenas o teclado substitui o cravo…” Eu preciso saber do que as ferramentas de que disponho são capazes, é como um marceneiro que precisa saber quais as ferramentas de que dispõe! Agora, a internet propicia uma divulgação não direcionada que me interessa, todo tipo de maluco desgarrado do sistema acadêmico pode se encontrar na rede e estabelecer contato, trocar experiências e também arranjar trabalho.

LINKS DO LIVIO

www.myspace.com/liviotragtenberg
www.myspace.com/livioeventos
www.radiomec.com.br/somdeletra

http://neuropolis-livio.blogspot.com

www.myspace.com/orquestrademusicosdasruas
www.myspace.com/blindsoundorchestra
www.myspace.com/somdomeiofio
www.myspace.com/strassemusik

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