DJ Dolores

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DJ Dolores atua profissionalmente como músico e produtor desde 1999, tendo realizado trabalhos autorais em CDs, diversas trilhas para dança, colaborações para revistas, livros, jornais ligados na área musical e foi colunista do Diário de Pernambuco entre os anos de 2005 a 2006. Como designer foi responsável pela formulação gráfica dos principais ícones da cena musical recifense na década de 90, conhecida como Mangue Beat. Ele foi responsável pelas capas, videoclipes e cartazes de grupos como Chico Science e Nação Zumbi, Mestre Ambrósio, Mundo Livre S.A. e Eddie. Nos anos de 1988 a 1995, foi desenhista de animação na produtora TV Viva e trabalhou como documentarista, em séries televisivas sobre a cultura brasileira, para o canal TV Cultura com a produção da produtora Polo de Imagens, entre 1995 a 1998. (Entrevista concedida no ano de 2008).

 * Vamos iniciar conversando como os atuais meios tecnológicos sonoros auxiliam ou limitam o trabalho nas composições e nas produções musicais?

 DJ Dolores – Jamais faria música, aliás  só comecei a fazer música, embora fosse interessado a vida inteira, depois que tive o meu primeiro computador. Para a realização é algo fundamental. Agora, em termos de conceito e criação a nossa vida é a maior matéria-prima, não tenho nenhuma dúvida. Não dá para dissociar uma coisa da outra. A tecnologia é o meu instrumento. Imagine, um grande violonista sem violão? Ela personifica, é o que transforma a música, o desenho que está na cabeça, é a realidade. Não é um mero filtro mas é o meu instrumento, é onde a sensibilidade, as idéias são desenvolvidas e aperfeiçoadas ou também frustradas. Às vezes, as pessoas tem uma boa idéia e não consegue realizar. Enfim, é o meio onde acontece todo o diálogo entre a cabeça e a realidade, o concreto e o físico.

 * Como fica a questão da sobrevivência relacionada com a sua função criativa? A tecnologia auxilia nesse sentido?

DJ Dolores – Posso ter encomendas de trilhas sonoras, jingles, discotecagens, eventos, performances, festas e shows. Simplesmente, sem a tecnologia eu não existo. A tecnologia me proporciona muita flexibilidade para ganhar dinheiro. Porque na maioria das vezes você não é somente remunerado por vendagens de discos. Mas, principalmente, pelo que ele representa para o seu trabalho. A vendagem funciona como um chamariz que pode te trazer maiores projetos. E sem a tecnologia seria impossível.

* Existe algum problema cultural no uso da mesma nomenclatura “Música Eletrônica” nos diferentes gêneros populares urbanos e nos eruditos?

DJ Dolores – Nenhuma importância.

* Poderia dar uma idéia de como é basicamente o seu processo composicional?

DJ Dolores – Como quase não sei tocar absolutamente nada, não sei assobiar, nem escrever direito e nem escrever música. Componho música tradicional cantando cada instrumento. Hoje em dia, componho os meus discos, depois os levo para alguém colocar na partitura e procuro um intérprete para executar essa partitura. Isso é o meu trabalho, com as minhas coisas e com os meus discos. Mas também faço outros trabalhos. Atualmente, estou envolvido num projeto que é uma equiparação enorme do museu Homem do Nordeste. Eles vão apresentar um acervo que é super tradicional, fundado e editado por Gilberto Freire. Mas eles querem de um jeito interativo. Por isso estou trabalhando basicamente com a edição de som (texturas e ambientes). Não existe uma fórmula. Às vezes, mudar uma coisa para outra, sair da canção e ir para essa coisa dos erros ou você pensa só em grave. A música é muito abstrata. Vou também pelo contrário, exemplo, numa canção a fórmula se monta numa textura, num refrão ou num ‘miolo’. É um grande desafio para mim.

* Você não lê partituras?

DJ Dolores – Não! Meu pai tentou me ensinar a ler partitura quando era adolescente, mas foi quando descobri que era bobagem.

* O que seu pai tocava? O que ele sabia de música?

DJ Dolores – O meu pai era um músico instrumentalista, ele tocava corda de sopro, vinha daquela geração do jazz brasileiro da década de 50. Era o jazz, o chorinho e a gafieira. Ultimamente, para entender como é mais complicado fiz um espetáculo no Rio de Janeiro, uma versão do Bem Amado. Tinha um musical com bastante músicas. Como meu pai ouvia bastante dobrado, marcha militar, cresci ouvindo isso e percebi que o tema tinha muito haver com as personagens Sucupira e Odorico Paraguaçu. Portanto, praticamente toda a trilha foi feita de ‘dobrado’ mas todo o ‘miolo’ e toda a criação foi feita no computador. No entanto, substituí algumas coisas por tuba, saxofone e trombone. Mas a origem, a semente foi eletrônica e a edição final totalmente eletrônica. Fiquei bastante orgulhoso, mandei para o meu pai ouvir essas músicas e ele ficou bastante emocionado. Por outro lado, quando estou trabalhando num projeto e em se tratando de manipulação de software, o que é realizado pelo intérprete por exemplo, na hora da finalização posso até vir mudar tudo e recriar aquilo que já foi feito.

 * Existem diferentes motivações ou outras inspirações presentes em seu ato criativo?

 DJ Dolores – Tem de tudo. Acho que a primeira coisa em ser DJ é pegar uma coisa mais específica da profissão, você tem todo o tipo de música à sua pauta de gosto. Marcelo D2 dizia que “um artista não pode ter gosto, pois quem tem gosto é burguês”, quer dizer, quem tem gosto é classe média, é consumidor. Então você tem que entender as diferentes formas de criação, de profissão e ao mesmo tempo tentar entender a percepção das pessoas para jogar com essa percepção. O complemento do trabalho vem exatamente do outro e a idéia de fazer música só para mim, é completamente estúpida. Tem que fazer música para interagir com outras pessoas e para se comunicar. Meus irmãos tocam bem instrumentos musicais mas seguiram rumos diferentes e logo eu, que nunca quis aprender nenhum instrumento, virei músico. Toda essa argumentação é para chegar ao que me influência e o que me motiva. É toda a forma de música, ouço qualquer tipo de música e acho que toda a música tem um elemento bacana, inteligente e é um exercício descobrí-lo. Você ouve uma música super ‘brega’, um idiota na rádio e aí você descobre uma harmonia genial, um verso, um refrão incrível, um momento com uma fibragem e você se pergunta: como ele fez isso? A minha visão de música é bem dividida em duas partes; a primeira é sociológica, é a importância da música como um elemento de comunicação entre os seres humanos dentro de um contexto musical e a segunda é bem técnica, a de descobrir padrões diferentes e de conceder música. As duas são igualmente fascinantes e muitas vezes estão interligadas. A técnica vem do ambiente onde a pessoa esta inserida. A pessoa tem o que produzir e acaba inventando algo tecnicamente inovador. Por causa de seus limites culturais, tecnológicos, enfim, um bom exemplo disso é a música da Jamaica. Os ‘caras’ nem sabiam disso e chegaram à essa fórmula através da técnica que desenvolveram em quatro canais porque é fruto de uma cultura que tem a ver com a psicologia, o ambiente psicodélico do reggae (lá todo mundo fuma maconha e ‘cheira’ muito). Eles chegaram à uma coisa que era muito inovadora e à grande referência da música ocidental que era os Beatles. Na época dos Beatles, os jamaicanos estavam muito vanguardistas, muito além da era da música popular e ao mesmo tempo era extremamente popular, era uma música de baile para as pessoas dançarem.

* Você adota métodos específicos para trabalhar em suas criações musicais?

DJ Dolores – Quero dizer que para cada trabalho, para cada encomenda, tenho um método, um jeito de trabalhar e de criar. É um processo e esse processo, inclusive, pode mudar no meio e passar para um outro processo. Posso tanto partir de um ‘dobrado’ como posso partir da canção, cantando e fazendo as minhas criações.

* Quais são as suas afinidades estéticas musicais?

DJ Dolores – Minhas afinidades têm haver com a busca eletrônica no sentido mais erudito, na linguagem de Steve Reich (1936), Varése (1883-1965) que são pessoas que me influenciaram bastante. Quando vi o Varése pela primeira vez, me senti ‘careta’. Tem uma coisa que invejo bastante nos grandes produtores de música eletrônica de pista: é a capacidade de síntese, que é pegar uma batida e fazer uma música inteira não entediante. Pelo menos para o público que gosta desse tipo de música, com mínimos elementos. Acho um dom invejável que particularmente nunca tive. Tem que ter muitos elementos cruzando, muita informação mas há compositores e produtores como Carl Craig (1969). Ele é genial, você tem aí uma música de poucas notas, no entanto, é uma música com personalidade. Craig é um produtor americano de Tecno super famoso. É um dos meus grandes modelos de produção, embora seja bem mais minimalista do que eu. Ele é bem menos dado a instrumentos acústicos, já eu gosto muito de instrumentos acústicos. E, sobretudo, a influência de meu pai músico Manoel Vieira.

* A opção lingüistica ou do gênero popular/erudito que o compositor faz para a sua produção criativa, determina a qualidade essencial da invenção?

 DJ Dolores – A literatura é fundamental e cinema, também, é muito importante. Quase tudo o que faço é feito sob imagem. Estou aqui no meu estúdio, em casa, daqui onde estou falando contigo, estou vendo uma televisão que está sempre ligada no processo de criação e imagino o que fazer com a trilha sonora. É a necessidade de interatividade, uma característica muito importante, o que torna a música muito popular, a forma das artes mais expressiva, mais forte e influente no sentido de comunicação de criar e invadir as pessoas. No entanto, a música de um ‘cara’ como John Cage, mesmo quando é interativo, ele não tem necessidade, ele está propondo uma questão que são poucos os que se interessam e se dispõem a participar daquilo. Na música popular não, você fundamenta ali, você já está pensando no outro, entende essa diferença?

* Graças à possibilidade de digitalização do som, como é pensada e gerada a música construída a partir das tecnologias sonoras/digitais?

DJ Dolores – Essencialmente sou intérprete, não toco nenhum instrumento, o processo musical na totalidade envolve a tecnologia disponível. A primeira tecnologia que tive, em mãos, foi a fita cassete e aqueles gravadores grandes que existiam antigamente. Dessa forma, montei o primeiro set da minha vida que foi no começo da década de 80. Já era a busca de um set, ou seja, um gravador multicanal que pudesse manipular os sons pré-gravados. Com o primeiro PC (modelo-286), tinha um editor de secretária eletrônica, fiz um disco inteiro pela secretária eletrônica manipulando sons pré-gravados, freqüência e mudando o timbre. A medida que a tecnologia foi evoluindo, o processo de criação foi ficando mais complexo e hoje em dia me sinto quase um cancioneiro, alguém que busca a fabricação.

* Geralmente, como você inicia uma idéia criativa? Pensando conjuntamente com a tecnologia? Como se dá o seu processo criativo inicial?

 DJ Dolores – A vivência, minha vida, isso é claramente um fator determinante. Em meus trabalhos sempre tive a oportunidade de estar viajando e de estar em contato com culturas muito diferentes. Mesmo antes de me tornar músico, já viajava porque fazia documentário para a televisão. Portanto, a vivência é algo que não tem quem roube, falo dessa coisa de viagens, é um dado que tem mais peso, pois é explícito. Obviamente a vivência cotidiana vai refletir no jeito de ver o mundo e, conseqüentemente, vai influenciar no seu trabalho, se você trabalha com criação. A tecnologia é fundamental, a tecnologia no sentido de computador e eletrônica. Não sei tocar nada, dependo e componho na base da tentativa ‘erro e acerto’, porque não toco, sento no teclado e ‘pa, pa, pa’, assim vou programando. Ouço e analiso se está bom, quando está errado puxo a nota para baixo ou subo para cima. Enfim, a tecnologia é fundamental e jamais faria música sem ela. Aliás só comecei a fazer música, embora fosse interessado a vida inteira, depois que tive o meu primeiro computador. Ou seja, para a realização é sim algo fundamental. Porém, em termos de conceito e criação a vida da gente é a maior matéria-prima, não tenho nenhuma dúvida. Não dá para dissociar uma coisa da outra. A tecnologia é o meu instrumento, imagine um grande violinista sem violão, entende? Ela personifica, é o que transforma a música, que está na cabeça do desenho, a realidade. Não é um mero filtro mas é o meu instrumento. É onde a sensibilidade e a idéia são desenvolvidas, aperfeiçoadas ou é frustrada também. Às vezes, temos uma boa idéia e não conseguimos realizar. Enfim, é o meio onde acontece todo o diálogo entre a cabeça e a realidade, o concreto e o físico.

* Como você se relaciona com o seu espaço de trabalho? Como é formado o seu set para trabalhar?

 Dj Dolores – Quando estou trabalhando com voz ou algum instrumento mais delicado, é necessário preparar a sala do estúdio como um ambiente acústico para melhor captar o som. Nesse caso, o meu homestudio não dá conta desse tipo de encomenda. O meu set é formado por um laptop McIntosh e um banco de sample. É o suficiente para desenvolver tudo que preciso, dependendo do projeto ou da encomenda. Transporto meu laptop pra todo lugar, viajo muito e ele é o meu grande aliado. Na verdade, o meu laptop é o meu tambor, assim como o violão para outros. Componho e trabalho com ele em qualquer lugar onde puder apoiá-lo. Geralmente, quando vou para os shows levo um set básico: um sintetizador, um laptop e um controlador midi. É o suficiente para garantir a minha apresentação.

* Como você vê a ‘ciber-pirataria’ e a distribuição comercial ilegal?

DJ Dolores – Compartilhar músicas é uma coisa mas fazer uso ilegal, não concordo. Posso ser generoso mas não bobo. Por exemplo, se eu ver uma música minha envolvida com vendas de cigarro que não sou a favor. Nesse caso, exijo os meus direitos.

* Como você vê a questão autoral na prática da apropriação de repertórios pelos DJs?

DJ Dolores – O DJ é um divulgador de repertório por natureza e existem vários tipos de DJs. O mais simples que faz colagens, discotecagens. Ele é uma espécie de Xamã que conduz os rituais da noite. Ele proporciona o feeling, a natureza do trabalho, seleciona, cria um ambiente sonoro de diferentes tipos. O papel do DJ é ser um divulgador é diferente do compositor e do intérprete. Faz tempo que eu não faço mais discotecagens, mas quando me pedem eu procuro levar músicas bem desconhecidas, inusitadas pra circular o repertório. Os direitos autorais teriam que ser revistos, no caso do Luís Gonzaga ele ganhava como intérprete tamanha era a participação dele na música.

*Para encerrar a entrevista do DJ Dolores tomei a liberdade (com o consentimento dele!) de acrescentar, nesse material, alguns comentários que Dolores fez no Facebook, no ano de 2012.

“Para os fundamentalistas das artes, um divertidíssimo vídeo sobre como a criação dos ícones é um processo coletivo. (E isso vale para qualquer outra forma de criação, porque arte é linguagem, não é natural, é inventada por nós, seres humanos).”

“Estou começando a me incomodar com tanta gente que se acha DJ, só aperta o play, não tem técnica para mixar/refazer os tracks, não produz nada e só toca coisa conhecida. É a banalização de uma arte que, quando exercida por quem sabe, é simplesmente fantástica. O que há por detrás disso: oportunidade do medíocre/preguiçoso/inculto musicalmente se sentir artista…”

 “…é que esses caras deseducam o público, desvalorizam a profissão, dificultam a vida de quem trabalha sério, estuda, ensaia, pesquisa, etc…”

“…acho que é deseducação mesmo…tipo, construção de um padrão lá embaixo porque realmente parece fácil ser DJ.”

“Tem também a razão econômica: um DJ pró é mais caro. Ok, sua festa vai ser medíocre, mas vai estar todo mundo bêbo mesmo… quem se importa com a música?”

LINKS DO DJ DOLORES

http://www.myspace.com/djdoloresaparelhagem

http://www.facebook.com/DJDolores

http://www.lastfm.com.br/music/Dj+Dolores/+wiki

http://worldmusiccentral.org/artists/artist_page.php?id=2353

https://itunes.apple.com/us/artist/instituto-dj-dolores/id313289292

http://pt.wikipedia.org/wiki/A_M%C3%A1quina

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